PARTICIPAÇÃO SOCIAL, O NOVO FANTASMA DAS ELITES

 Ladislau Dowbor *

O texto na nossa Constituição é claro, e se trata nada menos do que do fundamento da democracia: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Está logo no artigo 1º, e garante portanto a participação cidadã através de representantes ou diretamente. Ver na aplicação deste artigo, por um presidente eleito, e que jurou defender a Constituição, um atentado à democracia não pode ser ignorância: é vulgar defesa de interesses elitistas por quem detesta ver cidadãos se imiscuindo na política. Preferem se entender com representantes.

A democracia participativa em nenhum lugar substituiu a democracia representativa. São duas dimensões de exercício da gestão pública. A verdade é que todos os partidos, de todos os horizontes, sempre convocaram nos seus discursos a que população participe, apoie, critique, fiscalize, exerça os seus direitos cidadãos. Mas quando um governo eleito gera espaços institucionais para que a população possa participar efetivamente, de maneira organizada, os agrupamentos da direita invertem o discurso.

É útil lembrar aqui as manifestações de junho do ano passado. As multidões que manifestaram buscavam mais quantidade e qualidade em mobilidade urbana, saúde, educação e semelhantes. Saíram às ruas justamente porque as instâncias representativas não constituíam veículo suficiente de transmissão das necessidades da população para a máquina pública nos seus diversos níveis. Em outros termos, faltavam correias de transmissão entre as necessidades da população e os processos decisórios.

Os resultados foram que se construíram viadutos e outras infraestruturas para carros, desleixando o transporte coletivo de massa e paralisando as cidades. Uma Sabesp vende água, o que rende dinheiro, mas não investe em esgotos e tratamento, pois é custo, e o resultado é uma cidade rica como São Paulo que vive rodeada de esgotos a céu aberto, gerando contaminação a cada enchente. Esta dinâmica pode ser encontrada em cada cidade do país onde são algumas empreiteiras e especuladores imobiliários que mandam na política tradicional, priorizando o lucro corporativo em vez de buscar o bem estar da população.

Participação funciona. Nada como criar espaços para que seja ouvida a população, se queremos ser eficientes. Ninguém melhor do que um residente de um bairro para saber quais ruas se enchem de lama quando chove. As horas que as pessoas passam no ponto de ônibus e no trânsito diariamente as levam a engolir a revolta, ou sair indignadas às ruas. Mas o que as pessoas necessitam é justamente ter canais de expressão das suas prioridades, em vez de ver nos jornais e na televisão a inauguração de mais um viaduto. Trata-se aqui, ao gerar canais de participação, de aproximar o uso dos recursos públicos das necessidades reais da população. Inaugurar viaduto permite belas imagens; saneamento básico e tratamento de esgotos muito menos.

Mas se para muitos, e em particular para a grande mídia, trata-se de uma defesa deslavada da política de alcova, para muitos também se trata de uma incompreensão das próprias dinâmicas mais modernas de gestão pública.

Um ponto chave, é que o desenvolvimento que todos queremos está cada vez mais ligado à educação, saúde, mobilidade urbana, cultura, lazer e semelhantes. Quando as pessoas falam em crescimento da economia, ainda pensam em comércio, automóvel e semelhantes. A grande realidade é que o essencial dos processos produtivos se deslocou para as chamadas políticas sociais. O maior setor econômico dos Estados Unidos, para dar um exemplo, é a saúde, representando 18,1% do PIB. A totalidade dos setores industriais nos EUA emprega hoje menos de 10% da população ativa. Se somarmos saúde, educação, cultura, esporte, lazer, segurança e semelhantes, todos diretamente ligados ao bem estar da população, temos aqui o que é o principal vetor de desenvolvimento. Investir na população, no seu bem estar, na sua cultura e educação, é o que mais rende. Não é gasto, é investimento nas pessoas.

A característica destes setores dinâmicos da sociedade moderna é que são capilares, têm de chegar de maneira diferenciada a cada cidadão, a cada criança, a cada casa, a cada bairro. E de maneira diferenciada porque no agreste terá papel central a água; na metrópole, a mobilidade e a segurança e assim por diante. Aqui funciona mal a política centralizada e padronizada para todos: a flexibilidade e ajuste fino ao que as populações precisam e desejam são fundamentais, e isto exige políticas participativas. Produzir tênis pode ser feito em qualquer parte do mundo, coloca-se em contêiner e se despacha para o resto do mundo. Saúde, cultura, educação não são enlatados que se despacham. São formas densas de organização da sociedade.

Eu sou economista, e faço as contas. Entre outras contas, fizemos na Pós-Graduação em Administração da PUC-SP um estudo da Pastoral da Criança. É um gigante, mais de 450 mil pessoas, organizadas em rede, de maneira participativa e descentralizada. Conseguem reduzir radicalmente, nas regiões onde trabalham, tanto a mortalidade infantil como as hospitalizações. O custo total por criança é de 1,70 reais por mês. A revista Exame publica um estudo sobre esta Organização da Sociedade Civil (OSC), porque tenta entender como se consegue tantos resultados com tão poucos recursos. Não há provavelmente instituição mais competitiva, mais eficiente do que a Pastoral, se comparada com as grandes empresas, bancos ou planos privados de saúde. Cada real que chega a organizações deste tipo se multiplica.

A explicação desta eficiência é simples: cada mãe está interessada em que o seu filho não fique doente, e a mobilização deste interesse torna qualquer iniciativa muito mais produtiva. Gera-se uma parceria em que a política pública se apoia no interesse que a sociedade tem de assegurar os resultados que lhe interessam. A eficiência aqui não é porque se aplicou a última recomendação dos consultores em kai-ban, kai-zen, just-in-time, lean-and-mean, TQM e semelhantes, mas simplesmente porque se assegurou que os destinatários finais das políticas se apropriem do processo, controlem os resultados.

As organizações da sociedade civil têm as suas raízes nas comunidades onde residem, podem melhor dar expressão organizada às demandas, e sobre tudo tendem a assegurar a capilaridade das políticas públicas. Nos Estados Unidos, as OSCs da área da saúde administram grande parte dos projetos, simplesmente porque são mais eficientes. Não seriam mais eficientes para produzir automóveis ou represas hidroelétricas. Mas nas áreas sociais, no controle das políticas ambientais, no conjunto das atividades diretamente ligadas à qualidade do cotidiano, são simplesmente indispensáveis. O setor público tem tudo a ganhar com este tipo de parcerias. E fica até estranho os mesmos meios políticos e empresariais que tanto defendem as parceiras público-privadas (PPPs), ficarem tão indignados quando aparece a perspectiva de parcerias com as organizações sociais. O seu conceito de privado é muito estreito.

Eu, de certa forma graças aos militares, conheci muitas experiências pelo mundo afora, trabalhando nas Nações Unidas. Todos os países desenvolvidos têm ampla experiência, muito bem sucedida, de sistemas descentralizados e participativos, de conselhos comunitários e outras estruturas semelhantes. Isto não só torna as políticas mais eficientes, como gera transparência. É bom que tanto as instituições públicas como as empresas privadas que executam as políticas tenham de prestar contas. Democracia, transparência, participação e prestação de contas fazem bem para todos. Espalhar ódio em nome da democracia não ajuda nada.

* Economista, escritor, doutor em Ciências Econômicas. Professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Administração e Economia, atuando principalmente nos seguintes temas: mudança tecnológica, economia dos recursos humanos, economia regional e urbana, planejamento educacional e economia internacional. 

Para decidir os rumos do Brasil

ESCRITO POR FREI BETTO   

 

Mês que vem começa a propaganda eleitoral compulsiva e compulsória. Mais uma eleição em outubro, da qual é importante todos nós participarmos. Antes, porém, haverá algo tão importante quanto: o Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva e Soberana, na Semana da Pátria (1 a 7 de setembro). 

Eis a ocasião de dar uma virada no jogo! Vamos responder à questão: “Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o sistema político?”. Adianto aqui a minha resposta: eu sou.

Não será a primeira vez que isso acontece. Em 2002, o presidente FHC queria que o Brasil integrasse a ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), monitorada pelos EUA. O povo brasileiro foi consultado em plebiscito. Foram coletados 10.234.143 votos em 46.475 urnas em todo o país. O resultado comprovou a vontade popular: 98,32% dos eleitores se manifestaram contra a entrada do Brasil na ALCA.

No mesmo plebiscito havia outra pergunta: se o Brasil deveria ceder o território de Alcântara (MA) para os EUA instalarem uma base militar. Resultado: 98,54% votaram contra. O acordo foi anulado.

Outros plebiscitos foram convocados: em 2000, sobre a dívida externa; em 2007, sobre a privatização da Vale do Rio Doce (que só piorou após sair do controle do Estado).

A Constituição de 1988, em vigor, representa uma transição conservadora da ditadura à democracia. Teve o erro de não ser exclusiva. Foram seus formuladores os mesmos deputados e senadores eleitos para o Congresso pelo atual sistema político viciado. Por isso, preservaram muitos resquícios da ditadura, como a militarização da polícia, a estrutura fundiária favorável ao latifúndio, o pagamento da dívida pública, a injusta anistia aos torturadores e assassinos do regime militar, impunes até hoje!

A Constituinte Exclusiva e Soberana deverá ser unicameral, sem o Senado, e sem tutela do Judiciário e ingerência do poder econômico. Só através dela nosso país alcançará, de modo pacífico, as tão almejadas reformas de estruturas, como a agrária e a tributária, e priorizará a qualidade da educação, da saúde, do transporte público e de outras demandas populares.

Com essa Constituinte, proposta pelos movimentos sociais, poderemos aperfeiçoar a democracia representativa e participativa, e fortalecer o controle social sobre as instituições brasileiras.

Participe desde já! Esta é a forma e o momento de mudarmos o sistema político do Brasil, que hoje monopoliza em mãos do Congresso a convocação de plebiscitos e referendos.

Organize um Comitê Popular ou participe dos já criados em sua cidade, bairro, sindicato, movimento social ou partido político. Faça de seu computador uma arma para o aperfeiçoamento de nossa democracia! Saiba como fazê-lo e onde os comitês já atuam através destes contatos: www.plebiscitoconstituinte.org.br / facebook.com/plebiscitoconstituinte /

Email: plebiscitoconstituinte@gmail.com

 

SOBRE FÉ E FUTEBOL

Magali Cunha *

Semanas atrás fui convidada pelo Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, da Igreja Assembleia de Deus Betesda, para participar de um debate sobre fé e futebol. A pergunta era: “existe um lado bom no fanatismo?” Para me preparar mergulhei numa reflexão muito instigante. Primeiramente: qual é a relação entre fé e futebol?

Nenhum outro esporte mobiliza tanto os brasileiros quanto o futebol, que é, de fato, historicamente, uma paixão nacional. Como a religião também é forte elemento arraigado no jeito de ser brasileiro, não é difícil fazer a conexão futebol-religião.  

Assistir a uma partida de futebol no Brasil é testemunhar uma série de expressões religiosas tanto da parte de jogadores e equipe técnica como dos torcedores: orações de mãos dadas antes e depois das partidas, gestuais como o sinal da cruz, mãos elevadas, figa, sem contar os acessórios como cruzes, medalhas, colares.  Algo como um apego de fé para que o divino exerça o seu poder para fazer acontecer um resultado positivo.

Tudo isto ganha dimensões mais fortes em períodos de Copa do Mundo. A intensidade emotiva do tema traz fartas expressões tanto no noticiário quanto nas peças publicitárias. Entram em cena os aspectos da fé que são parte da representação do próprio futebol. Quem nunca observou quantas palavras e gestos religiosos estão presentes na publicidade em torno do tema do futebol?

Mas… e o lado bom do fanatismo, existe? Qualquer experiência, seja religiosa, seja esportiva, quando envolve paixão e emoção levadas ao extremo, está a um passo do fanatismo. Aqui estamos no mundo do extremismo e o grande perigo dele está justamente na certeza absoluta e incontestável que o devoto/torcedor tem. Detentor de uma verdade (religiosa ou esportiva), o fanático torna-se intolerante. Não age com a razão quando defrontado com posições diferentes ou questionamentos daquilo que defende. O fanatismo é marcado pela irracionalidade, pelo autoritarismo e pelo agir passional, frequentemente violento. Fanáticos sempre acreditam que o fim, qualquer que seja, justifica os meios.

Somos chamados a prestar atenção em histórias de fanatismo religioso em que a relação entre líderes e seguidores termina sempre em tragédias coletivas. O caso mais famoso e controvertido é o do Templo do Povo, de Jim Jones, na Guiana, no ano de1978. No tempo presente, ações de fanatismo islâmico estão mais em evidência nas mídias, a despeito do caráter fraternal dessa religião. NoBrasil são as religiões de matriz africana as maiores vítimas da intolerância. Fanáticos católicos no passado e,recentemente, evangélicos, são protagonistas de ações que chegam a causar mortes. Isso sem falar das ações de lideranças religiosas, presentes na política partidária, baseadas na retórica do terror e no preconceito, em especial nestes tempos eleitorais…

No futebol o fanatismo se manifesta principalmente por meio de torcidas organizadas. Elas levam a devoção ao extremo de agredirem torcedores dos times adversários. Os outros são tratados como inimigos e as arquibancadas e as ruas viram campo de batalha.

Diante disso, não tive dificuldade na resposta à questão do debate: não, não há um lado “bom” no fanatismo. Em qualquer uma de suas justificativas – religiosas, esportivas ou políticas – não há nada de positivo. Fanatismo é expressão de autoritarismo e de intolerância, duas das mais cruéis características da violência humana. O fanatismo nega o diálogo, a diversidade, o direito do outro à diferença. Fanáticos carregam uma cegueira que não lhes permite ver como um igual quem pensa e se comporta diferente deles; pior, consideram inimigos todos os que não compartilham da sua devoção.

Nestes tempos, vale à pena recuperar a orientação da tradição cristã para qualquer experiência que envolva emoção e paixão: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, o amor”.

*Jornalista, Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, Pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade. Integra a diretoria da Associação Internacional Mídia, Religião e Cultura (International Association Media Religion and Culture).

INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ

“Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos
tenho ordenado” (Mt 28,19-20)”

Com o objetivo de atender a esse mandato precisamos encontrar maneiras de ajudar nossos irmãos batizados a crescerem na fé, até à plena maturidade, firmes e perseverantes, dando frutos de vida cristã esperados.
A “Igreja – casa de iniciação à vida cristã” – é a segunda urgência do 11º Plano de Pastoral da nossa Arquidiocese, que queremos continuar a incrementar em 2014. O subsídio, fruto do trabalho da equipe de animação bíblico-catequética da Arquidiocese de São Paulo, tem a finalidade de suscitar em todas as paróquias e organizações da Igreja na Arquidiocese de São Paulo uma séria reflexão sobre a iniciação à vida cristã e a busca de caminhos eficazes para realizá-la; com a colaboração de todos e com as reflexões e sugestões recolhidas, serão reelaboradas as Diretrizes para os Sacramentos de iniciação à vida cristã e também para a catequese.
O tema da Iniciação à Vida Cristã insere-se na preocupação missionária que permeia toda a ação da Igreja, preocupada com a secularização crescente em todo o mundo. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco, também fruto do Sínodo dos Bispos sobre “a nova evangelização para a transmissão da fé cristã” faz um forte apelo para a Igreja e traz também um grande estímulo nesse sentido.
O aprofundamento do processo de iniciação à vida cristã em nossas comunidades deverá envolver de modo especial as pastorais de animação e acompanhamento do processo catequético de iniciação, como batismo, crisma, eucaristia, também voltados aos adultos, já batizados, mas não bastante iniciados à fé e à vida cristã, em estreita articulação com a liturgia.
Muito mais que a organização de cursos que se inspiram numa pedagogia de escola, o processo de iniciação se inspira na experiência catecumenal das primeiras comunidades cristãs. É nessa direção que se encaminha a nova evangelização exigida pelos tempos atuais e que exige uma verdadeira conversão pastoral.
A Iniciação Cristã compreende o processo pelo qual alguém é incorporado ao mistério de Cristo Jesus. Não se restringe à catequese, mas inclui especialmente a ação celebrativo-litúrgica. A catequese é uma etapa, a mais longa e importante, do processo de inserção na fé cristã. A real iniciação acontece na celebração dos sacramentos do Batismo, Eucaristia e Crisma, chamados de Sacramentos da Iniciação. Trata-se de uma iniciação denominada sacramental.
Segundo a Igreja todo batizado é incorporado em Cristo Jesus e começa a fazer parte de seu Corpo Místico, do Povo de Deus, da Igreja. Porém, a expressão iniciação cristã passou a significar todo o processo pós-batismal percorrido para se chegar a esta profunda realidade da fé do ponto de vista experiencial e existencial. É a iniciação que, uma vez realizada sacramentalmente, faz com que a pessoa se conscientize, assuma e viva plenamente a realidade da vida divina comunicada pelo mergulho (batismo) em Cristo Jesus.
Diante da realidade na qual a família não mais educa na fé e tampouco exerce um catecumenato social Aparecida, nos convida a uma “conversão pastoral e renovação missionária…” (no. 375; cf 172-173; 11, 450…). Esse esforço em se assumir o processo da a Iniciação à Vida Cristã corresponde a colocar em prática as propostas do Diretório Nacional de Catequese, de Aparecida, da Missão Continental… entre outros documentos. Agora não se trata de fazer algumas alterações em nossas práticas catequéticas, mas de assumir um novo modelo, um novo paradigma.
Esse novo olhar deve ter reflexos no comportamento de cada um dos envolvidos. Mais do que formativa a Iniciação à Vida Cristã tem um caráter performativo.
Trata-se de aderir conscientemente a um projeto de vida, de ter um encontro pessoal com Jesus Cristo. E, nesse sentido, percebemos que são os adultos os que precisam de um processo bem vivido de iniciação, pois, para entrar em um novo projeto de vida são necessárias etapas de aproximação.
Lembramos, ainda, que o processo de iniciação acontece sempre com relação ao mistério; é mergulho pessoal no mistério; ele está presente também no centro da fé. Jesus fala do Reino usando a categoria de mistério: “A vós é confiado o mistério do Reino de Deus” (Mc 4,11; Mt 13,11; Lc 8,10). O Apóstolo Paulo sintetiza a intuição que norteou a sua vida e que transparece de todas as cartas com estas palavras: “sou ministro…do mistério que esteve oculto durante séculos e gerações e que, agora, se manifestou aos seus santos …isto é, Cristo em vós, a esperança da glória” (Cl 1,25-27).
A Iniciação Cristã possui quatro características que definem sua natureza: 1): ela é obra do amor de Deus. 2) Esta obra divina se realiza na Igreja e pela mediação da Igreja. 3) Requer a decisão livre da pessoa. 4) Trata-se da participação humana no diálogo da salvação
O itinerário da iniciação cristã inclui sempre “o anúncio da Palavra, o acolhimento do evangelho, que implica a conversão, a profissão de fé, o Batismo, a efusão do Espírito Santo, o acesso à comunhão eucarística” (CIC, 1229).
Os fundamentos da vida cristã são colocados pelos sacramentos da iniciação cristã: Batismo, Confirmação e Eucaristia. Esses sacramentos constituem a base da vocação comum de todos os discípulos, chamados à santidade e à missão evangelizadora no mundo. O Batismo nos insere no Mistério da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, nos faz novas criaturas nele, filhos de Deus e irmãos uns dos outros, e participantes de seu tríplice múnus: sacerdotal, profético e real. Este grande dom nos é dado através da Igreja, nossa mãe, sacramento vivo e encarnado do Corpo Místico de Cristo. O sacramento da Confirmação consolida esta realidade batismal, vinculando-nos mais perfeitamente à Igreja, enriquecendo-nos com a força especial do Espírito Santo, e ungindo-nos para a missão de discípulo e testemunha de Cristo. A Eucaristiaé “fonte e ápice de toda a vida cristã” (LG 11), pois ela realiza a comunhão de vida com Deus e com os irmãos, no mistério do corpo místico de Cristo. Ela é o memorial da Páscoa de Cristo, e atualiza para a nossa vida a obra da salvação realizada pela Vida, Morte e Ressurreição de Cristo. Ela é alimento de vida, pela comunhão do Corpo e o Sangue de Cristo, alimento de vida eterna.
E, assim fica o desafio lançado em Aparecida: “Ou educamos na fé, colocando as pessoas realmente em contato com Jesus Cristo e convidando-as para seu seguimento, ou não cumpriremos nossa missão evangelizadora” (nº 287; cf. 286-294).

Por : Edna Márcia Perez Pires
Coord. Catequese Região Ipiranga
Membro da Coord. Arquidiocesana

‘Temos a impressão de que a chamada transição democrática não vai acabar nunca’

Escrito por Gabriel Brito e Paulo Silva Junior, da Redação   

 

O Brasil se reencontra com sua história e, mesmo a contragosto, faz cada vez mais exames críticos de seu passado, ainda repleto de fatos desconhecidos da sociedade, como exemplificam diversos trabalhos divulgados da Comissão da Verdade. Na “descomemoração” deste infeliz cinquentenário, entrevistamos Marcelo Zelic, diretor do Grupo Tortura Nunca Mais, um dos mais perseverantes movimentos por justiça e reparação que o país conheceu. 

“A transição, parece, continua acontecendo. Temos a impressão de que ela não vai acabar nunca. No momento, temos trabalhado a questão da “justiça de transição”, para ver se viramos a página do período da ditadura e conseguimos tocar adiante a construção da democracia, tirando da frente a herança do regime militar, que perdura até hoje”, diz Zelic, também colaborador das Comissões da Verdade Nacional e Estadual (em SP).

Na conversa, o entrevistado desmistifica a boataria que alguns setores espalham a respeito de “perigos golpistas” nos dias de hoje. Primeiro porque, como explica, a direita já desenvolveu outros mecanismos de assalto ao poder, menos violentos e mais eficientes. Em segundo lugar, porque aventar o velho fantasma parece também do interesse de grupos atualmente incrustados no poder, ainda depositários de um passado de lutas e fibra política.

No mais, Marcelo Zelic mostra-se pessimista com a atual forma do nosso Estado dito democrático se relacionar com a população. “Penso que o recado está dado. E com um enfrentamento de consequências muito ruins, no sentido de que a repressão está muito grande. A forma do Estado em lidar com as manifestações é equivocada. Em vez de buscar formas de diálogo, o Estado busca aperfeiçoar legislação de repressão, reforçar os mecanismos e estruturas de repressão…”.

A entrevista, realizada em parceria com a webrádio Central3, pode ser lida a seguir.

Correio da Cidadania: Que balanço você faz de nossa chamada transição democrática, agora que se completam 50 anos do golpe militar de 64?

Marcelo Zelic: A transição, parece, continua acontecendo. Temos a impressão de que ela não vai acabar nunca. No momento, temos trabalhado a questão da “justiça de transição”, para ver se viramos a página do período da ditadura e conseguimos tocar adiante a construção da democracia, tirando da frente a herança do regime militar, que perdura até hoje.

Correio da Cidadania: Sobre as forças armadas, como você as analisa hoje? O que poderia ser dito a respeito de suas orientações ideológicas, no sentido de possivelmente ainda manterem apreço pelo regime militar?

Marcelo Zelic: Hoje, Temos uma situação bem diferente do passado. Não sou daqueles que acredita ser tudo igual. Uma coisa são os militares que ainda defendem a ditadura, dentro dos clubes militares. São pessoas aposentadas e que se relacionaram com a época. Temos hoje forças armadas que não atuam na sociedade somente com esse tipo de pensamento. Também há pessoas dentro das forças armadas que pensam em virar tal página.

Precisamos parar de olhar as forças armadas como um monobloco. Tudo que é enxergado como monobloco deixa a possibilidade de leituras erradas, porque tudo tem suas nuances, correlações de força… Como em qualquer instituição da sociedade, temos de tudo também dentro das forças armadas. Ela é toda formada por seres humanos que têm preferências políticas e gostos ideológicos. No caso dos militares ativos, o apreço pela ditadura não aparece muito, pois não se manifestam publicamente sobre o assunto.

Correio da Cidadania: Acredita que as movimentações que setores de direita têm anunciado, principalmente nas redes, são ameaças reais, que encontrarão eco nas ruas? 

Marcelo Zelic: Acho importante olharmos esse tipo de situação. Uma coisa é o que acontece no facebook, outra é o que acontece na sociedade. Tem gente que vê coisa rolando no facebook e acha sério… Já tivemos, pela direita, passeatas e chamadas ao golpe e aos militares que não levaram 50 pessoas na Avenida Paulista, como no ano passado.

Portanto, precisamos complementar as coisas, para que efetivamente não se ache que a força e organização de tal tipo de pensamento são maiores do que a realidade mostra. Não estou desmerecendo, ou me recusando a ver, uma articulação de direita colocada na sociedade. Mas não é só a direita que se organiza e manifesta. Há uma articulação de todas as forças. Todos os grupamentos políticos e sociais se organizam e manifestam hoje em dia.

Não podemos colocar as coisas fora do seu contexto real, porque aí damos ênfase para algo que não existe, e de repente tornamos maior algo que não é tão grande assim.

Correio da Cidadania: Em tempos em que já temos uma razoável historiografia a respeito das mentiras que alimentaram o golpe e que também passamos por uma Comissão Nacional da Verdade, você acredita mesmo que haja espaço concreto para uma tentativa golpista?

Marcelo Zelic: Eu não acredito em golpe do jeito que aconteceu no passado, como se fala. É evidente que setores que almejam o poder vão se organizando conforme a realidade, para tentar alcançá-lo. Hoje, existem outras formas de chegar ao poder, não só pelas forças armadas. Temos o exemplo do que aconteceu em Honduras e Paraguai, onde os presidentes foram destituídos por outros mecanismos.

Temos de estar sempre atentos. Mas no Brasil, apesar de termos um marco muito importante, como a Constituição de 1988, ainda temos uma democracia pouco participativa, incipiente. É uma democracia onde as pessoas praticamente só votam. Votam e reclamam. Não participam da construção da sociedade. Assim, penso que há um amadurecimento a ser feito, que ainda não atingimos.

Mas não acredito muito que estejamos em situação pré-golpista ou que os cenários se assemelhem. Tem muita cortina de fumaça e interesses que criam esse tipo de impressão.

Correio da Cidadania: Sobre a Comissão da Verdade, que avaliação você faz dela, após quase dois anos de trabalhos?

Marcelo Zelic: Dentro da Comissão da Verdade, tenho me dedicando à questão indígena. E nesse ponto avançamos muito pouco. Como em vários outros pontos. Há um reclamo geral a respeito da pouca transparência da Comissão, e ela tem trabalhado muito no sentido de investigar casos mais emblemáticos. Porém, creio que uma Comissão da Verdade tem de se dedicar a levantar a maioria dos casos ocorridos.

Não há sentido em transformar a violência contra os indígenas em uma violência de segunda categoria. Os indígenas foram atropelados por um modelo de desenvolvimento. E tal modelo se repete, é continuado depois do fim da ditadura militar. Temos um desenvolvimento que ataca os indígenas até hoje. E isso não é verificado pelas pessoas, pois acham que não tem importância.

Penso ser fundamental, para avançar a democracia no Brasil, olhar o direito das minorias, porque é uma régua que pode medir o quanto avançamos. Os direitos indígenas, portanto, são uma régua que mede a situação dos direitos humanos, como um todo, no Brasil.

Correio da Cidadania: Do ponto de vista dos movimentos que têm ido às ruas, como acha que será marcado esse ano político de 2014, com a Copa do Mundo cercada de polêmicas e contestações, tentativas parlamentares de aprovar legislações punitivas mais duras e um processo eleitoral logo a seguir? 

Marcelo Zelic: Acredito que tem sido um ano no qual a sociedade intensificou o reclamo sobre questões de maior impacto na sua vida. Os despejos da Copa, a discussão a respeito de onde se investe o dinheiro etc. elevaram o nível das reivindicações relativas à satisfação das pessoas com o cotidiano de suas vidas. Daí o grande volume de protestos.

Temos no país uma situação onde a educação, apesar de ter melhorado em alguns indicadores, segue muito ruim. Tem lugar onde sequer há carteira escolar, a escola é totalmente detonada. Temos transportes totalmente entregues a máfias, empresas rapineiras. Como o Estado muda essa postura em prol do desenvolvimento e do bem estar social?

Penso que o recado está dado. E tem sido dado com um enfrentamento de consequências muito ruins, no sentido de que a repressão está muito grande. A forma do Estado em lidar com as manifestações é equivocada. Em vez de buscar formas de diálogo, o Estado busca aperfeiçoar legislação de repressão, reforçar os mecanismos e estruturas de repressão, criando novas polícias, autorizando a atuação de forças que não deveriam agir internamente…

Dessa forma, temos uma situação que mostra o quanto o Estado está despreparado, em todas as frentes, para uma relação democrática com a sociedade.

Minha experiência como Leigo na Igreja

“Digo, aos senhores Bispos, que não é fácil ser leigo. Na nossa frente as portas ficam mais fechadas do que abertas e nem sempre nos estendem a mão, nem sempre nos escutam, nem sempre nos olham no rosto e nem sempre podemos falar. Por isso, agradecemos esta oportunidade e de antemão agradecemos os frutos desta Assembleia. Não queremos alimentar ressentimentos, queremos servir. No movimento de Francisco, nós também queremos sair! Queremos primeirear! Sair enquanto Igreja! Uma Igreja em saída!”, testemunha Cesar Kuzma, doutor em Teologia pela PUC-Rio e professor/pesquisador desta mesma Universidade, em depoimento prestado na 52ª Assembleia da CNBB, em Aparecida, no dia 01-05-2014.

Eis o testemunho.

1. A importância da CNBB falar sobre este tema

A CNBB sempre foi referência por estar na vanguarda e por aplicar nas suas ações e diretrizes as grandes novidades conciliares, fortalecendo o serviço da Igreja ao mundo, sendo sinal, um sinal realizador. Portanto, falar sobre os Leigos, dedicar uma Assembleia e um ano a esta vocação (até mesmo mais um documento) é, na verdade, reconhecer aqueles e aquelas que estão em maior número no corpo eclesial (a maioria) e que não querem (e não devem) mais ser tratados de maneira passiva, como aqueles que sempre ouvem e recebem, ou como o povo conquistado…

Os Leigos de hoje, apontamos aqui todos os que assumem verdadeiramente a sua vocação e missão, querem ser verdadeiros discípulos missionários, querem (e devem) ser tratados naquilo que o batismo lhes garante por direito, eles querem ser sujeitos eclesiais. Podemos dizer que eles têm o “direito” de ter “dever”, e este dever é um serviço colocado para a edificação da Igreja e para o serviço do Reino, um serviço no mundo. Os Leigos querem exercer a sua autonomia, garantida pelo Vaticano II e que reflete uma maturidade eclesial, exigida a toda a Igreja. Sabemos que muitos são os desafios e grandes são os contextos, tanto sociais quanto eclesiais. Mas nos alegra e nos encoraja saber que os Bispos do Brasil, em comunhão com toda a Igreja, estão decididos em seguir este caminho. Parabéns! E Coragem! Nas palavras de Francisco: “Ousem e primeireem!”. Precisamos disso!

2. Quem sou eu e qual é o meu objetivo aqui

Meu nome é Cesar Kuzma, sou leigo, melhor dizendo, um cristão-leigo. Tenho 37 anos de idade, sou casado há 11 anos e minha esposa chama-se Larissa, ela é Assistente Social. Nós temos dois filhos: a Julia, que tem 2 anos e 6 meses, e o Daniel, de apenas 11 meses. Digo a vocês que a família é o que temos de mais precioso e, também, é o que temos de mais sensível, pois tudo a atinge e nela devemos ser sempre zeladores, cuidadores da vida que nos foi confiada e que é a nossa missão, mas ao mesmo tempo devemos ser promotores da justiça e da dignidade para todos.

A vida familiar hoje nos coloca novos desafios e nos faz pensar, de maneira aberta e conscienciosa o novo papel da mulher, o novo papel do homem, a nova condição dos filhos, e a situação de todos os que da família fazem parte e que dela se aproximam. Se a sociedade hoje é plural, esta noção obriga a família, enquanto Igreja doméstica, ao exercício da acolhida, do respeito e da promoção humana; sem reducionismos, sem fundamentalismos ou extremismos. O exercício do Amor, que sacramenta esta união e condição eclesial, nos abre a esta perspectiva.

Minha trajetória eclesial começa por influência de minha mãe, uma mulher guerreira, leiga engajada e comprometida, líder de pastorais e de comunidades eclesiais de base. Uma mulher que sempre se colocou em serviço e sempre nos ensinou a servir, a colocar-se a caminho, em marcha, sem aparecer, mas na simplicidade e no testemunho.

Fui membro da Pastoral de Juventude, onde iniciei a minha caminhada, expressão da Igreja a qual sou bastante simpático e é um berço de bons cristãos e de boas vocações, autênticas e proféticas com a causa do Reino. Os ensinamentos de minha mãe e a experiência de Pastoral me levaram a outros grupos, onde pude aprender e dar um pouco mais de mim mesmo. Isso me levou às comunidades, às ações pastorais e sociais, às palestras e assessorias a grupos de jovens, de casais e de pastoral social e cultural.

Tenho orgulho do caminho que fiz como leigo e digo que não saberia ser Igreja de outra maneira. Acho sublime, e me encanta saber que a condição batismal, muito bem descrita na Lumen Gentium nos garante esta plenitude. Vejo no ser leigo algo peculiar, que o mantém aberto ao horizonte do Reino proclamado por Jesus, que também era leigo, e por ser leigo estava inserido no contexto de seu tempo e foi em seu tempo, e para os seus, um autêntico testemunho; trouxe a todos o novo rosto de Deus, um Deus próximo e solidário, um Deus que se despoja para nos atingir, que vem até nós e que nos ama, um Deus que é Amor. Assim é o Leigo, é alguém que está no mundo, que se despoja para estar nele, que é rosto da Igreja no mundo e o rosto do mundo na Igreja, como atestou a Conferência de Puebla, e Aparecida repetiu e reafirmou. 

De minha mãe, já falecida (jovem aos 58 anos e praticamente nos meus braços), aprendi a seguinte lição:

1) Caminhar com Cristo;

2) surpreender-se por Cristo;

3) e, o continuar a obra de Cristo, o Reino de Deus. Para ela, isso se fazia servindo.

Esta experiência comunitária e de pastoral me levou à Teologia. E fiz este caminho por influência de Clodovis Boff, a quem tenho muito estima e respeito. A graduação me levou à pós, ao mestrado e ao doutorado. Atuei como professor da PUC do Paraná por 7 anos, sendo 5 anos como diretor. E hoje desembarco no Rio de Janeiro, também na PUC, para exercer ali um ministério e uma pastoral. É a Teologia a serviço da Igreja, um serviço no discernimento crítico de nossa vocação e missão.

3. Algumas questões que nos tocam enquanto leigos e que pude vivenciar, mesmo com pouca idade

A questão do clericalismo. O Papa Francisco tem falado insistentemente sobre isso, falou aqui no Rio, tem falado em suas homilias e deixou registrado na Exortação Evangelii Gaudium. Isso não nos é novidade, pois há tempos já se fala sobre este assunto, mas algo precisa ser feito. O problema do clericalismo é que ele nos leva a ver a Igreja apenas por um lado, não se vê o todo e facilmente se cai na esfera do poder, não do serviço. Isso aparece em atitudes do clero, mas também nos leigos, quando falta maturidade e a experiência pastoral parece turva. Tal questão dificulta o exercício da vocação laical, pois impede o seu desenvolvimento, retira a sua autonomia e não implica no respeito e na comunhão, não gera fraternidade.

A relação entre leigos e hierarquia. É necessário dizer que há bons frutos desta relação e há bons caminhos percorridos, mas isso não é uma regra. Em algumas situações, notamos que o contato é áspero. Vejo isso muito mais como um efeito cultural do que intencional. Chego a dizer que o clero, em parte, acostumou-se a viver independente do leigo, ou a tê-lo em seu domínio; já o leigo, por sua vez e em parte, acostumou-se por ficar dependente do clero, por ser mais cômodo, talvez, o que não gera inquietação e compromisso. A falha está nos dois lados e apenas uma maturidade de ambas as vocações pode mudar esse quadro.

O trabalho do leigo na Igreja. O que é? O que se quer dele? Sempre fui levado a trabalhar na Igreja pela experiência e vivência de minha mãe. Vi a Igreja como uma extensão de minha casa, e a minha casa sempre foi uma extensão da Igreja, sempre presenciei isso, principalmente pelas inúmeras atividades que minha mãe exercia em sua comunidade. Mas acompanhando de perto, vem a nós a pergunta: “a quem servimos com o nosso trabalho?”. “Como somos vistos e de que maneira o nosso trabalho, como um serviço eclesial/missionário/pastoral é importante?”.

Falta aqui uma intencionalidade mais clara por parte da instituição e também por parte dos leigos, que atuam de coração aberto, livres e de boa vontade, sempre querendo agradar. Falte, talvez, um reconhecimento, em vários níveis. É importante deixar claro que o seu trabalho não é um plus a mais, não é uma extensão ou um apoio, não é apenas suprimir uma falta… O seu trabalho é um apostolado, pois é o próprio Cristo que o chama e o garante em sua missão e o leva ao bom exercício da mesma, através do seu Espírito. O Concílio Vaticano II afirma que os Leigos não estão sós e que sua missão não é em vão, maneira como termina o Decreto. 

A questão ministerial. É o que nos leva a uma questão urgente e importante que, penso eu, deve ser tocada por esta Assembleia, não apenas nesta ocasião, mas em outras, e cada vez de modo mais profundo. O que entendemos e o que queremos entender por ministério? Aproveito aqui a presença do teólogo Bruno Forte que muito tem se dedicado a isso. Faz-se necessário ampliar a compreensão que temos de ministério, pois o mesmo está muito focado na sacramentalidade e no ministro ordenado, e não se completa na condição do trabalho e do serviço de toda a Igreja. Ou seja, a quem se destina e a quê?

Se focarmos o ministério apenas, ou com um reforço maior, na sacramentalidade, tornamos a comunidade refém de parte do clero, ou mesmo infantilizada na fé; e esta não é a intenção que se quer para os ministros ordenados. Com isso, a Igreja não atinge a sua identidade missionária, para a qual convoca todos os batizados, cada membro do seu corpo, cada qual com seu dom e carisma, e é o mesmo Espírito que sustenta a todos e todos corroboram para a edificação da Igreja e para o crescimento de todos. Faço lembrar que o documento 62, que já trabalhou a questão do laicato, e diga-se bem, de maneira profunda, já aborda a questão da ministerialiade, chegando até a ousar. Penso que as necessidades de nossas comunidades e de nossas periferias, que no Brasil são longínquas, exigem de nós algo mais ousado. O contexto eclesial que irrompeu com o Papa Francisco nos provoca a esta questão.

A questão da formação, sobretudo, a teológica. Para este momento gostaria de trazer um pouco da minha experiência de universidade e de gestão de curso de teologia. É um fato que os cursos de Teologia não são destinados para uma vocação específica. A formação e o entendimento teológico são necessidades de toda a Igreja que busca entender o que crê; e, entendendo, tem a capacidade de discernir e, por isso, pode servir mais e melhor. No entanto, é uma realidade que por muito tempo se deu uma importância maior para a formação teológica dos seminaristas e religiosos e se deixou de lado a formação teológica dos leigos; ou quando era oferecida, não tinha o mesmo frescor e não abordava os mesmos conteúdos, pelo menos não em totalidade ou em profundidade.

Isso mudou com os anos, e hoje, principalmente pelo bom desenvolvimento da formação catequética e pelo aumento (e de qualidade!) dos cursos de Teologia no Brasil, sobretudo os que são reconhecidos pelo MEC, temos um número grande (talvez até maior) de leigos que buscam a formação teológica. Vejo isso como louvável, pois o interesse pelo qual buscam não é o de uma obrigatoriedade, como um passo necessário para ordenação ou votos religiosos, mas o entendimento, o amor a Cristo e à Igreja, o serviço.

Tenho acompanhado muitos leigos entrarem em cursos de graduação trazendo para estes a riqueza de suas vidas, de suas experiências e de sua outra formação. Fazem da Teologia um espaço público e de diálogo, não de respostas prontas; e neste espaço eles a colocam na prática e no serviço.

Contudo, nem tudo são flores neste jardim… As dificuldades que os leigos enfrentam são maiores e mais graves, pois não recebem apoio institucional, não recebem incentivos e ajudas financeiras de suas comunidades e dioceses (salvo algumas exceções), precisam acomodar os estudos com os afazeres do trabalho (em horários difíceis) e com a guarda familiar, algumas vezes precisam pedir tutela (declarações) do bispo ou do pároco para poder fazer este curso, o que tira a sua autonomia; e muitas vezes, não são privilegiados com bolsas em instituições católicas, como acontece com os seminaristas, o que não é apenas uma falta apenas para com estes cristãos comprometidos, mas com toda a Igreja que necessita “urgentemente” de formação, ressalto aqui uma formação que seja aberta e capaz de dialogar, nunca, jamais de enfrentamento e de fechamento.

Continuando… Eu enfrentei este problema quando dirigi o curso da PUC de Curitiba. Tínhamos um excelente curso, mas pouquíssimos alunos. Na ocasião, em 2012, conversei com Dom Moacyr José Vitti, conversei com a Pastoral da Arquidiocese e conversei com a Reitoria e com o Provincial dos Irmãos Maristas (que administram a PUC). Consegui convencê-los da importância eclesial deste curso e de como estava ligado à missão institucional. Resultado: fechamos numa bolsa de quase 90% para todos os alunos, deixando a mensalidade em R$ 150,00, em Curitiba e em Londrina. Isso para todos: leigos, religiosos, seminaristas, ricos ou pobres, e também a nossos irmãos protestantes, a todos. Resultado: abriram-se turmas cheias em Curitiba e em Londrina, e isso se repetiu no ano seguinte. E mais, quase 80% são leigos e leigas. Este exemplo poderia ser repetido em outros lugares, ou se poderia ver mais exemplos parecidos e criar novas perspectivas. É certo que o lado financeiro não garante o todo, mas alguém tem que puxar este braço e oferecer, e quem pode mais, ajudar quem não pode tanto.

Ainda sobre a formação: falo por experiência na gestão do curso de Teologia. Eu entendo as razões que no passado se levou a separar a formação seminarística da formação laical, em alguns casos, até da feminina. Todavia, em vista da questão do mundo de hoje e da necessidade de se fortalecer a dimensão de Povo de Deus na Igreja, isso não se justificaria mais. Seria um avanço muito grande se pudéssemos ter em uma mesma sala leigos, religiosos e seminaristas. Isso engrandeceria muito. Precisaria, evidentemente, respeitar o espaço de cada vocação e favorecer também (e isso nos falta!) aspectos e disciplinas teológicas que favoreçam aquilo que é específico da vocação laical, a sua atuação no mundo secular.

Ressalto aqui, que a formação universitária não é a única forma de se buscar conhecimento e aprofundamento da fé. Faz sentido e é também urgente fomentar a formação em vários níveis, também pastoral e popular, na experiência e na mística, em cada pastoral e em suas especificidades, de modo que o entendimento do “ser” e do “fazer” cristão se tornem uma realidade. A Igreja ganharia muito se acolhesse também a sabedoria de muitos leigos e leigas, testemunhas vivas do Evangelho e que marcam a vida de pessoas e mais pessoas. Tive isso com a minha mãe.

4. Para finalizar:

Digo a vocês que os leigos querem servir, e precisamos ajudá-los a isso, para que sejam verdadeiros sujeitos eclesiais, que atuem como luz do mundo e sal da terra. Os leigos não querem ocupar um espaço que não lhes pertence; eles querem ocupar um espaço que corresponde a sua vocação e missão, a fim de que possam exercê-la e santificar-se, sendo testemunhas do Reino no mundo, com autencidade e coerência, no serviço.

Digo, aos senhores Bispos, que não é fácil ser leigo. Na nossa frente as portas ficam mais fechadas do que abertas e nem sempre nos estendem a mão, nem sempre nos escutam, nem sempre nos olham no rosto e nem sempre podemos falar. Por isso, agradecemos esta oportunidade e de antemão agradecemos os frutos desta Assembleia. Não queremos alimentar ressentimentos, queremos servir. No movimento de Francisco, nós também queremos sair! Queremos primeirear! Sair enquanto Igreja! Uma Igreja em saída!

Que o Espírito da comunhão favoreça o nosso entendimento e nos leve a servir, como Igreja, como Povo, como Povo de Deus.