A IGREJA DE JESUS CRISTO É A IGREJA DOS POBRES

No dia 11 de setembro de 1962, um mês antes da abertura do Concílio Vaticano II, o papa
João XXIII enviou uma mensagem ao mundo. Nela, o papa fala de Jesus como “luz” e da missão
da Igreja de “irradiar” essa luz no mundo; fala da preocupação e responsabilidade da Igreja
com esses problemas; e fala da contribuição que o Concílio poderia oferecer para a solução dos
mesmos – contribuição fundada “na dignidade do ser humano e em sua vocação cristã”. E, aqui,
passa a indicar alguns pontos importantes: a igualdade de todos os povos no exercício dos seus
direitos e deveres, a defesa da família e a responsabilidade social. Neste contexto, João XXIII
acrescenta o que considera “outro ponto luminoso”: “Pensando nos países subdesenvolvidos,
a Igreja se apresenta e quer realmente ser a Igreja de todos, em particular, a Igreja dos pobres”.

Comentando esta afirmação, o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, destaca três idéias importantes.
Em primeiro lugar, a igreja é pensada em relação com os pobres e com os países
pobres. Em segundo lugar, o texto estabelece os termos de uma relação tensa, mas fundamental
na Igreja: universalidade da salvação (Igreja de todos) – parcialidade ou predileção na realização
histórica da salvação (Igreja dos pobres). Em terceiro lugar, a Igreja aparece como uma
realidade em processo, não acabada: “é e quer ser”

A afirmação do papa teve muita repercussão em um grupo de bispos que ficou conhecido
como “Igreja dos pobres” e que no final do Concílio assumiu um compromisso com a pobreza
e o serviço aos pobres, firmando o chamado “Pacto das Catacumbas”. Entre eles estavam dois
cearenses: um de nascimento (dom Helder Câmara) e um de missão (Dom Fragoso). Esses bispos
trabalharam muito para que os pobres recuperassem na Igreja o lugar central que tinham
na vida e missão de Jesus: “É nosso dever colocar no centro deste Concílio o mistério de Cristo
nos pobres e a evangelização dos pobres” (Cardeal Lercado de Bolonha); “O primeiro lugar na
Igreja é reservado aos pobres” (Charles-Marie Himmer, bispo de Tournai).

Apesar da importância e da repercussão desse grupo, ele não alcançou o que esperava do
Concílio: Que a Igreja que é de todos, fosse, sobretudo, dos pobres. Talvez fosse muito para um
Concílio dominado pelas Igrejas do primeiro mundo, Igrejas inseridas no mundo da riqueza e,
em grande medida, aliadas aos ricos e poderosos… Mas a semente foi lançada pelo bom e santo
papa João XXIII!

Três anos depois, na Conferencia do Episcopado latino-americano em Medellín (1968), a
semente germinou e começou e crescer e produzir muitos frutos. Nascia uma Igreja profética,
pobre e comprometida com os pobres; Igreja de todos, mas, sobretudo, Igreja dos pobres;
Igreja da libertação. Sua característica mais importante foi e continua sendo o que se convencionou
chamar Opção preferencial pelos pobres.

Aos poucos a Igreja foi re-descobrindo e re-assumindo algo que era fundamental e central
na vida e na missão de Jesus, algo que nunca se perdeu completamente na vida da Igreja, mas
algo tinha perdido centralidade e relevância em uma Igreja seduzida pelo poder e pela riqueza,
tantas vezes aliada dos ricos e poderosos. Uma parcela cada vez maior da Igreja (do simples
fiel e da liderança comunitária a religiosos/as, presbíteros, bispos, cardeais; de pessoas isoladas
a paróquias, dioceses e até conferencias episcopais), passa a assumir, por causa do Evangelho
de Jesus Cristo, a causa dos pobres e oprimidos. E de muitas formas: defendendo seus
direitos, denunciando as injustiças que se cometem contra eles, apoiando e até participando
de suas lutas e organizações. Muitos chegaram a ser perseguidos, caluniados, torturados e até
martirizados por causa dos pobres. São mártires da justiça do Reino de Deus, mártires dos
pobres – como Jesus!

Certamente, não é essa a Igreja que está na mídia, que dá ibope, que arrasta multidões…
Os pobres são sempre os últimos – até nas igrejas que sempre têm coisas mais “importantes”
e “urgentes” para fazer que cuidar dos caídos à beira do caminho (Lc 10, 25-37). Mas essa é a
Igreja de Jesus Cristo e ela continua viva e atuante como “fermento”, “sal” e “luz” da justiça do
Reino neste mundo. Ela se faz presente em muitas comunidades e grupos que vivem a fraternidade
e a solidariedade, que denunciam e se enfrentam com as mais diferentes formas de injustiça,
opressão, preconceito e discriminação, que apóiam e participam das lutas dos pobres
e oprimidos na defesa e conquista de seus direitos, que criam serviços e estruturas de apoio
e defesa dos pobres e fracos como as pastorais sociais (terra, indígena, povo da rua, menor,
criança, idoso, carcerária, mulher, caritas etc.) e, enfim, que anunciam com a palavra e com a
vida que Deus é “Deus dos humildes, socorro dos pequenos, protetor dos fracos, defensor dos
desanimados, salvador dos desesperados” (Jt 9, 11) e que “religião pura e irrepreensível aos
olhos de Deus Pai consiste em cuidar de órfãos e viúvas em suas necessidades e em não deixarse
contaminar pelo mundo” (Tg 1, 27).

Por: Francisco de Aquino Júnior – Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte e professor da Faculdade Católica de Fortaleza

Anúncios

O bem comum foi enviado ao limbo

As atuais discussões políticas no Brasil em meio a uma ameaçadora crise hídrica e energética se perdem nos interesses particulares de cada partido. Há uma tentativa articulada pelos grupos dominantes, por detrás dos quais se escondem grandes corporações nacionais e multinacionais, a midia corporativa e, seguramente, a atuação do serviços de segurança do Império norte-americano, de desestabilizar o novo governo de Dilma Rousseff. Não se trata apenas de uma feroz critica às políticas oficiais mas há algo mais profundo em ação: a vontade de desmontar e, se possível, liquidar o PT que representa os intersses das populações que historicamente sempre foram marginalizadas. Custa muito às elites conservadores aceitarem o novo sujeito histórico – o povo organizado e sua expressão partidária – pois se sentem ameaçadas em seus privilégios. Como são notoriamente egoistas e nunca pensaram no bem comum, se empenham em tirar da cena essa força social e política que poderá mudar irreversivelmente o destino do Brasil.
Estamos esquecendo que a essência da política é a busca comum do bem comum. Um dos efeitos mais avassaladaores do capitalismo globalizado e de sua ideologia, o neo-liberalismo, é a demolição da noção de bem comum ou de bem-estar social. Sabemos que as sociedades civilizadas se constroem sobre três pilastras fundamentais: a participação (cidadania), a cooperação societária e respeito aos direitos humanos. Juntas criam o bem comum. Mas este foi enviado ao limbo da preocupação política. Em seu lugar, entraram as noções de rentabilidade, de flexibilização, de adaptação e de competividade. A liberdade do cidadão é substituida pela liberdade das forças do mercado, o bem comum, pelo bem particular e a cooperação, pela competição.
A participação, a cooperação e os direitos asseguravam a existência de cada pessoa com dignidade. Negados esses valores, a existência de cada um não está mais socialmente garantida nem seus direitos afiançados. Logo, cada um se sente constrangido o garantir o seu: o seu emprego, o seu salário, o seu carro, a sua família. Impera o individualismo, o maior inimigo da convivência social. Ninguém é levado, portanto, a construir algo em comum. A única coisa em comum que resta, é a guerra de todos contra todos em vista da sobrevivência individual.
Neste contexto, quem vai implementar o bem comum do planeta Terra? Em recente artigo da revistaScience (15/01/2015) 18 cientistas elencaram os nove limites planetários (Planetary Bounderies), quatro dos quais já ultrapassados: o clima, ia ntegridade da biosfera, o uso da solo, os fluxos biogeoquímicos( fósforo e nitrogênio). Os outros encontram-se em avançado grau de erosão. Só a ultrapassagem desses quatro, pode tornar a Terra menos hospitaleira para milhões de pessoas e para a biodiversidade. Que organismo mundial está enfrentando essa situação que detrói o bem comum planetário?
Quem cuidará do interesse geral de mais de sete bilhões de pessoas? O neoliberalismo é surdo, cego e mudo a esta questão fundamental como o tem repetido como um ritornello o Papa Francisco. Seria contraditório suscitar o tema do bem comum, pois o neoliberalismo defende concepções políticas e sociais diretamente opostas ao bem comum. Seu propósito básico é: o mercado tem que ganhar e a sociedade deve perder. Pois é o mercado que vai regular e resolver tudo. Se assim é por que vamos construir coisas em comum? Deslegitimou-se o bem-estar social.
Ocorre, entretanto, que o crescente empobrecimento mundial resulta das lógicas excludentes e predadoras da atual globalização competitiva, liberalizadora, desregulamentora e privatizadora. Quanto mais se privatiza mais se legitima o interesse particular em detrimento do interesse geral. Como mostrou em seu livro Thomas Piketty, O Capitalismo no século XXI quanto mais se privatiza, mais crescem as desigualdades. É o triunfo do killer capitalismo. Quanto de perversidade social e de barbárie aguenta o espírito? A Grécia veio mostrar que não aguenta mais. Recusa-se a aceitar do diktat dos mercados, no caso, hegemonizados pela Alemanha de Merkel e pela França de Hollande.
Resumindo: que é o bem comum? No plano infra-estrutural é o acesso justo de todos à alimentação,à saúde, à moradia, à energia, à segurança e à cultura. No plano social e cultural é o reconhecimento, o respeito e a convivência pacífica. Pelo fato de sob a globalização competitiva foi desmantelado, o bem comum deve agora ser reconstruído. Para isso, importa dar hegemonia à cooperação e não à competição. Sem essa mudança, dificilmente se manterá a comunidade humana unida e com um futuro bom.
Ora, essa reconstrução constitui o núcleo do projeto político do PT originário e de seus afins ideológicos. Entrou pela porta certa: Fome Zero depois transformada em várias políticas públicas de cunho popular. Tentou colocar um fundamento seguro: a repactuação social a partir dos valores da cooperação e a boa-vontade de todos. Mas o efeito foi fraco, dada a nossa tradição individualista a patrimonialista.
Mas no fundo vigora esta convicção humanística de base: não há futuro a longo prazo para uma sociedade fundada sobre a falta de justiça, de igualdade, de fraternidade, de respeito aos direitos básicos, de cuidado pelos bens naturais e de cooperação. Ela nega o anseio mais originário do ser humano desde que emergiu na evolução, milhões de anos atrás. Quer queiramos ou não, mesmo admitindo erros e corrupção, o melhor do PT articulou e articula esse anseio ancestral. É a partir daí que pode se resgatar, se renovar e alimentar sua força convocatória. Se não for o PT serão outros atores em outros tempos que o farão.
Cooperação se reforça com cooperação que devemos oferecer incondicionalmente.Sem isso viveremos numa sociedade que perdeu sua altura humana e regride ao regime dos chimpanzés.
Leonardo Boff é colunista do JBonline, teólogo, filóaofo e escritor

Filha do silêncio

Minha História Maria Helena de Aguiar N., 31

Filha de padre católico conta como guardou esse segredo por 25 anos, para proteger o sacerdócio de seu pai

RESUMO Maria Helena de Aguiar N. é uma sobrevivente. Sobreviveu, em silêncio, ao peso de um poderoso estigma, o de ser filha de um padre, da Igreja Católica, que permaneceu na função. Passou 25 dos seus 31 anos soterrada pelo peso da culpa (alheia), até que o noticiário em torno da abertura da igreja para homossexuais e católicos casados fora dos cânones animou-a a prestar este depoimento. O silêncio produziu feridas, mas não a impediu de formar-se em Relações Internacionais, pela Universidade de Brasília, e de, ironia do destino, tornar-se funcionária da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência –justamente ela a quem o destino negou o elementar direito de dizer “meu pai”. O segundo sobrenome é omitido a pedido dela, que não quer expor o pai.

(…) Depoimento a

CLÓVIS ROSSIDE SÃO PAULO

Lembro-me bem da luminosidade do dia e do local em que soube que era filha de um padre, um padre que não abandonara o sacerdócio.

Era uma manhã de sol, na varanda do nosso apartamento em Brasília. Minha mãe disse: “É um segredo. Nunca revele a ninguém. Seu pai é padre. Quando lhe perguntarem sobre isso diga que ele é professor universitário. De filosofia. No sul do país”.

Acho que tinha 4 ou 5 anos, no máximo. Nessa idade, acredito, não se questionam ordens. Se obedece. E assim foi feito por cerca de 25 anos.

Os contatos com meu pai eram muito rápidos e feitos por meio de ligações telefônicas a cobrar, três vezes ao ano. Páscoa, aniversário e Natal. Sussurradas.

Talvez como forma de aumentar a culpa pela transgressão à norma e pela minha existência não se optou por romper de uma vez por todas o frágil laço que nos unia.

Na infância, a manutenção do segredo era essencial para minha sobrevivência em um ambiente familiar e escolar absolutamente católico.

Estudar em colégios como Santa Doroteia, Sagrada Família, Marista e outros cuja coordenação pedagógica era administrada por ordens como a salesiana ou pela Opus Dei (uma prelazia), era, para mim, o grande desafio da discrição e do anonimato.

Para além da excelente formação educacional e cultural recebida nesses colégios, formei-me, também, na arte da despersonalização.

Quanto mais calada, mais introspectiva e menos informações pessoais aos colegas de classe, melhor. Em uma época em que filhos de pais divorciados ainda sofriam discriminação, via como verdadeira sentença de morte a possibilidade de ser descoberta como filha de padre.

Características físicas e de personalidade como timidez, discrição, voz baixa, aspecto frágil e doçura foram, na verdade, ativos desenvolvidos como proteção pela sobrevivência nesses ambientes.

Hoje me divirto quando recebo elogios ou críticas nesse sentido. A maioria dessas características permanece.

Brinco com alguns amigos mais íntimos que poderia mandar meu currículo para a inteligência russa em razão desse treinamento intensivo de mentira e de dupla espionagem desde a infância.

As catequeses e as missas dominicais, de igual maneira, eram ambientes inóspitos e muito pouco acolhedores aos quais acabei me adaptando com o passar dos anos e, paradoxalmente, gostando de frequentar.

Essa é hoje a parte da história que mais me assusta. Pensar que, ao mesmo tempo em que gostava de frequentar ambientes e ritos religiosos, acreditava também na ideia de que eu era a materialização do “pecado” pela quebra do celibato.

Isso significou me descobrir alguém que gostava de se sentir punida.

Certo dia acordei de manhã e me vi como a cachorrinha Kashtanka de um dos clássicos de Tchekhov, que largou uma vida confortável no circo e voltou para o “conforto” de seu dono agressor. Tive medo.

Esse meu gosto pelo sofrimento significava, na realidade, a reprodução de uma opção feita pelos meus pais de não abandonarem parte importante da sua identidade cultural –a religião católica– por conta da concepção de uma filha.

A escolha pela negação da identidade de pai e de mãe em função da reafirmação de uma identidade católica –mais forte e dominante.

E a óbvia culpa manifestada inconscientemente em diversas ocasiões.

Sempre existiu a opção de abandonar a profissão de padre ou a de criar a filha em um ambiente não religioso e livre da culpa católica. A liberdade e a plena consciência são sempre uma opção. Mas optou-se pelo sofrimento e pela culpa. De ambas as partes.

A minha não reação a fatos importantes, como quando soube pela minha mãe que meu pai lhe pediu aborto ou que ela própria tentou se matar em uma depressão pós-parto, são sinais de o quanto o silêncio e a negação de fatos reais sempre foram, para mim, confortáveis refúgios de sobrevivência.

A vitimização e a manutenção do silêncio teriam sido o caminho mais fácil caso não tivesse a sorte de ouvir de uma amiga psicóloga: “Esse segredo não é seu!”.

Aos poucos essa frase foi se solidificando e fui me afastando cada vez mais dos dogmas religiosos e do estigma de ser “filha de padre”.

Ainda hoje, porém, o inconsciente continua me dando algumas rasteiras e, por vezes, me vejo revivendo dores de vazios não preenchidos.

Ouvi recentemente de uma amiga de trabalho que ela e o marido estavam preparando um almoço de casamento para suas famílias. No mesmo instante, ouvi de novo a frase de um funcionário do seminário quando, pela última vez, em 2006, tentei contato com meu pai por meio de ligação anônima e obtive a seguinte resposta: “Ele está de férias com a família”.

Família é conceito difuso. Deveria ser o lugar de acolhimento e de hospitalidade de todo indivíduo.

O lugar no qual todos os membros se sentissem queridos, protegidos, abraçados “”não de forma teatral e dissimulada, mas genuína.

Lugar de acolhimento do ser em sua essência “”e não de julgamentos pela escolha de parceiros, pela opção sexual, pela renda, pelo tipo físico ou pela vida pregressa dos pais.

Para os filhos de padres, bastardos por decreto da Igreja Católica desde o nascimento, o conceito de família é algo a ser repensado e ressignificado. Caso contrário, é possível que traumas se instalem e se perpetuem por gerações.

Na França, na Alemanha e na Áustria existem associações de filhos de padres, os chamados “Enfants du Silence”. No Brasil não. Talvez pelo amplo moralismo e conservadorismo que ainda permanecem em nossa sociedade. Ou pelo medo.

A Igreja Católica e a sociedade brasileira precisam dar voz a esse segmento de sobreviventes.

Sobreviventes do aborto, do preconceito e, especialmente, de anos de silêncio acerca de sua identidade.

Compartilhe

A urgência de refundar a ética e a moral

Leonardo Boff

Uma das demandas maiores atualmente nos grupos, nas escolas, nas universidades, nas empresas, nos seminários de distinta ordem é a questão da ética. As solicitações que mais recebo são exatamente para abordar este tema.

Hoje ele é especialmente difícil, pois não podemos impor a toda a humanidade a ética elaborada pelo Ocidente na esteira dos grandes mestres como Aristóteles, Tomás de Aquino, Kant e Habermas. No encontro das culturas pela globalização somos confrontados com outros paradigmas de ética. Como encontrar para além das diversidades, um consenso ético mínimo, válido para todos? A saída é buscar na própria essência humana, da qual todos são portadores, o seu fundamento: como nos devemos nos relacionar entre nós seres pessoais e sociais, com a natureza e com a Mãe Terra. A ética é da ordem prática, embora se embase numa visão teoricamente bem fundada. Se não agirmos nos limites de um consenso mínimo em…

Ver o post original 709 mais palavras

A Vocação dos Leigos e das Leigas

Séculos depois, na Idade Média, o leigo vira mero e silencioso ouvinte; torna-se o que não sabe o latim (idioma oficial da Igreja), o inculto, o analfabeto, que não tem aceso à Bíblia. A missão ficou nas mãos da hierarquia e, parcialmente, dos religiosos e religiosas consagradas. Assim nasceu e progrediu a distância entre hierarquia e laicato, entre clero e povo.

Neste período o que distingue os leigos dos demais fiéis é, em primeiro lugar, a chamada “definição negativa”, pela qual o termo leigo, pelo menos desde Tertuliano, adquiriu o sentido técnico de cristão “não pertencente ao clero”, ou seja, leigo é quem não tem ordens sacras! Esse conceito bastante negativo tem raiz na clericalização da Igreja, quando, na verdade, os cristãos leigos e, de modo particular, as cristãs leigas encontravam-se totalmente excluídos da participação direta na vida e na ação da Igreja, limitando-se a apenas cumprir as ordens emanadas pela hierarquia.

A origem da palavra leigo

A palavra portuguesa leigo é proveniente do grego laikós que provém da palavra laos cujo significado é massa, ou seja, multidão, agregado social, aglomeração de gente. A isto acrescenta-se uma conotação bastante pejorativa. No grego clássico, o sentido do termo não é somente multidão, de povo, mas insinua-se que esse povo não é qualificado, é inferior, por isso distinto de seus chefes. Essa visão bastante negativa é confirmada pelas traduções latinas ou pêlos sinónimos empregados para expressar o significado de laikós. Entre outras expressões encontramos: “idiota”, “iletrado”, “secular”, “plebe”.

Assim os próprios cristãos leigos e leigas foram se imaginando “idiotas”, estranhos e, conseqüentemente, comportando-se como tais. Por causa disso, ainda hoje, a maioria deles vive nesse estilo e nessa condição dentro da Igreja. Diante dessa situação, a teologia da vocação, traduzida em prática pela Pastoral Vocacional, deve contribuir para a superação desse inconsciente coletivo que tanto mal tem feito à comunidade cristã.

Graças ao Concílio Vaticano II, essa compreensão foi superada com um grande esforço de todos para recuperar a originalidade perdida. Assim, na Constituição Dogmática sobre a Igreja “Luz dos povos” (Lumen Gentium), antes de falar da hierarquia (cap. lll) e dos leigos (cap. IV), fala do povo de Deus (cap. II). É a Igreja na sua totalidade, naquilo que é comum a todos os membros. Ai o concílio superou a distância entre hierarquia e laicato, e a desigualdade tão perniciosa.

A noção de povo de Deus exprime a profunda unidade, a comum dignidade e fundamental habilitação de todos os membros da Igreja à participação na vida da Igreja e à co-responsabilidade na missão. Assim, quando o concílio fala da “Atividade missionária da Igreja”, diz:

“Como membros de Cristo vivo. a E/e incorporados e configurados pelo Ba tis mo e também pela Confirmação e a Eucaristia, obrigados se acham todos os fiéis ao dever de cooperar na expansão e dilatação de seu corpo, para o levarem quanto antes à plenitude. Convençam-se por isso vivamente todos os filhos da Igreja de sua responsabilidade para com o mundo. Empenhem-se com afinco na obra da evangelização”(AG 36).

O Concílio Vaticano II está interessado em descrever positivamente o leigo. Por isso, partindo da ênfase sobre o Batismo, vai afirmar a sua Incorporação a Cristo’,’ constituição no povo de Deus’,’ participação na tríplice função de Cristo e, conseqüentemente, sua participação na missão comum a todo o povo cristão. Estes elementos, porém, são comuns a todos os membros da Igreja. O leigo exerce a missão do povo cristão “na Igreja e no mundo”. Em relação aos clérigos e aos religiosos, o leigo é o cristão que vive no mundo.

A descrição pode parecer equívoca, pois também o ministro ordenado e o religioso vivem no mundo. O que é, porém, diferente é o ‘modo’ de o leigo estar presente no mundo:

“Lá são chamados por Deus para que, exercendo seu próprio ofício guiados pelo espírito evangélico, a modo de fermento, contribuam para a santificação do mundo e assim manifestam Cristo aos outros”.

O concílio exorta os cristãos a procurarem desempenhar fielmente suas tarefas terrestres, guiados pelo espírito do Evangelho.

Afastam-se da verdade os que, sabendo não termos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura, julgam, por conseguinte, poderem negligenciar os seus deveres terrestres, sem perceberem que estão mais obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé, de acordo com a vocação à qual cada um foi chamado.

Assim os leigos devera buscar e promover o bem comum:

Na defesa da dignidade do homem e de seus inalienáveis direitos à vida, à segurança, ao trabalho,à moradia, à educação, à religião,à participação em associações livres,à posse da terra;

Na proteção dos mais fracos e necessitados: crianças, anciãos, marginalizadosjovens, desempregados, encarcerados, operários;

Na construção da paz, da liberdade, da justiça, “apresentar a fisionomia duma Igreja comprometida com a promoção da justiça em nossos povos” (Puebla 777); “sério compromisso com a promoção da justiça e do bem comum, agente de justiça” (Puebla 793).

Por isso o leigo cristão é “homem da Igreja no coração do mundo e homem do mundo no coração da Igreja” (Puebla 787).

Deve marcar, completar, transfigurares “valores “do mundo.
poder, cultura, eficiência, progresso, realização.

Através dos valores evangélicos testemunhados em sua vida e no seu agir: serviço, participação, valorização do homem, comunhão, promoção do outro, libertação dos pequenos e oprimidos.

A VOCAÇÃO DOS LEIGOS E LEIGAS

Como membro do povo de Deus, o leigo é chamado a ser fermento de santidade, testemunhando as riquezas de seu Batismo e Confirmação. Ele traz ao conjunto da Igreja a sua experiência de participação nos problemas, desafios e urgências do seu mundo secular, das pessoas, grupos sociais e povos.

“Consciente de sua realidade de batizado, deve participar na pastoral de conjunto, na sua planificação e execução”
(Puebla 807-808),

“Promovendo na Igreja estruturas de diálogo, de participação e ação pastoral de conjunto, expressão de maior consciência de pertença à Igreja” (Puebla 794-799).

Por isso assume trabalhos diversificados dentro da comunidade (ministérios).

ESPIRITUALIDADE DO CRISTÃO

A espiritualidade do seguimento é fundamental para a vivência cristã. O Espírito ensina-nos o verdadeiro seguimento de Jesus e suscita hoje uma espiritualidade mais integrada, em que todas as dimensões humanas são contempladas: a corporeidade, a afetividade, a emoção, a racionalidade, a criatividade e a sociabilidade.

Os discípulos de Emaús caminharam junto com Jesus, experimentaram sua presença, acolheram o sentido da cruz e regressaram à comunidade, animados e encorajados. Esse encontro com Jesus é experiência do mistério que nos circunda e envolve, que aquece os corações, que seduz as pessoas, proporcionando um sentido novo às nossas vidas. A paixão por Jesus nos leva a viver a compaixão, a solidariedade e a fazer da partilha fraterna nosso estilo de vida.

A espiritualidade não é“uma parte da vida, mas a vida inteira guiada pelo Espírito” de Jesus. “Entre os elementos de espiritualidade que todo cristão deve assumir como próprios, destaca-se a oração.

A oração o levará, aos poucos, a ver a realidade com um olhar contemplativo, que lhe permitirá reconhecer a Deus em cada instante e em Todas as coisas; de contemplá-lo em cada pessoa; de procurar cumprir sua vontade nos acontecimentos”.

A espiritualidade não afasta da vida cotidiana.

Especialmente leigos e leigas devem buscar a santidade dentro de suas próprias condições de /ida. É o que ensina o Concílio Vaticano II. Após ter afirmado com vigor a /ocação de todos os fiéis à santidade, a Constituição Lumen Gentium propõe alguns itinerários espirituais não apenas a ministros e consagrados, mas também aos esposos e pais, aos trabalhadores, aos pobres, aos sofredores, aos perseguidos pela justiça, concluindo: “Todos os fiéis santificar-se-ão lia a dia, sempre mais, nas diversas condições da sua vida, nas suas ocupacões e circunstâncias, e precisamente através de todas essas coisas, desde que as recebam com fé das mãos do Pai celeste e cooperem com a vontade divina, manifestando a todos, no próprio serviço temporal, a caridade com que Deus amou o mundo”. (CNBB, Doe. n° 62; 176-180)

Textos para aprofundar o assunto:
– Lumen Gentium – Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II
– Doc 62 CNBB – missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas
– José Lisboa – Nossa resposta ao amor – Teologia das vocações específicas, Editora Loyola.

Texto bíblico para meditar:
-Mt5, 13-16
– Lc 10,1

 

Dignidade no exercício do ministério litúrgico

A ação litúrgica e a participação ativa e consciente da assembleia são servidas por ministérios e serviços multiformes suscitados pelo Espírito, em sua Igreja.
Conforme o número 26 da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, a Sacrosanctum Concilium (SC), a liturgia, como ação de Cristo e da Igreja, é uma ação ministerial que atinge a cada um dos seus membros de forma diferente, conforme a diversidade de ordens, ofícios e da participação atual. Cada um a seu modo contribui para a edificação do corpo eclesial, através do exercício dos ministérios e funções, das quais destacamos os ministérios ordenados, os instituídos, os confiados, ministros/as extraordinários da sagrada comunhão, ministros/as extraordinários do Batismo, assistentes leigos do Matrimônio, ministros/as da presidência da celebração dominical da Palavra e outras funções ministeriais e serviços litúrgicos.
Os ministérios não instituídos, de forma estável ou ocasional, pode ser um serviço litúrgico, como coroinhas, leitores, salmistas, grupo de cantores, instrumentistas, regente de coral ou do canto, sacristães, animadores/as, os que fazem a coleta, recepcionistas, mestre de cerimônias e outros. Mas, ainda, muitos homens e mulheres prestam serviços espontâneos que tornam a celebração mais participada.
Se a comunicação é celebrativa do mistério de Deus, ela acontece graças ao corpo e ao espírito, ou seja, a pessoa toda é envolvida na percepção do escondido no seu próprio interior e no interior da comunidade toda. No exercício do ministério litúrgico a comunicação humana passa pela mediação dos símbolos, que toca os sentidos e atinge o interior, que se expressa na postura, nos gestos, no canto, na fala, nos rosto, nas vestes, na presença em si, que irradia o Mistério de Cristo.
A maneira de vestir ajuda a conduzir ao mistério de Cristo, para isso, quem exerce um ministério litúrgico, não instituído, é convidado a fazer uso de veste adequada. A variedade das vestes litúrgicas manifesta a diversidade dos ministérios exercidos na liturgia e é sinal da função de cada um. A veste dá o sentido do revestir-se de Cristo, de sua autoridade, do seu serviço. Assim, convém que a veste litúrgica contribua para a beleza da ação sagrada e para a dignidade do ministério litúrgico. Ela reveste o ser humano e complementa ao mesmo tempo a constituição de seu corpo, revelando o seu interior. Um provérbio assim expressa, do jeito que te vestes, se vê de que jeito tu és!
A veste é um símbolo, que comunica e revela uma força simbólica, que ultrapassa o seu simples uso, porque o ser humano vai muito além de sua corporeidade. Ela expressa, não só as situações humanas, mas o exercício de uma função, de um serviço, de uma natureza. Em se tratando de vestimenta de celebrar o mistério da fé, a reunião fraternal da comunidade que se encontra e a esperança-certeza da festa eterna no céu, ela se transforma numa linguagem expressiva e altamente simbólica.
Quanto mais é sublime e transcendente o que temos a comunicar ou a celebrar, tanto mais necessitamos destes sinais sensíveis, que velam e revelam o escondido, o mistério que esconde cada sinal. Neste sentido, a veste litúrgica se torna uma mediação na comunicação com Deus. Esta comunicação exige, (a) consciência, sensibilidade, respeito e dimensão interior, que manifeste o que se está celebrando em comunidade e não o individualismo de um lugar qualquer. (b) Simplicidade, despojamento, em sintonia com a Palavra, com a pobreza da Mesa da refeição, com o compromisso de serviço à comunidade e também, em sintonia com o despojamento do mistério. (c) Beleza e equilíbrio, dignos da função que está sendo exercida, que harmoniza dignidade e serviço. Algo bonito, que faz bem aos olhos e ao coração. (d) Formas inculturadas na realidade social e cristã, por isso, variadas, mas que guardem seu valor simbólico, que expressam o humano e o litúrgico da fé, bem como a comunhão com a Trindade e com os irmãos e irmãs. (e) Alegria de festa num dia especial do Senhor e exige também, um vestir com dignidade.
Perguntas para reflexão pessoal e em grupos
1. O que de significativo ou importante pode ser destacado no texto e, como liga isso à sua comunidade?
2. O que se entende por ministério litúrgico? Por onde passa o seu exercício com dignidade?
3. Qual é o sentido da veste litúrgica? Sendo ela uma mediação na comunicação com Deus, o que exige?
Por Mirte Santina Pagnussat

O DESEJO DE CONHECER

Em um dos mitos mais famosos registrados pela História da Filosofia, Platão nos conta
que alguns homens se encontravam presos no interior de uma caverna,1 induzindo-nos
imaginar, de acordo com a descrição dos detalhes dessa prisão-caverna, que se assim
permaneciam desde que nasceram desconheciam, por decorrência, o mundo exterior.
Entre esses prisioneiros e a liberdade, ou seja, no limite da entrada da caverna, ardia
uma fogueira que impedia esses homens de poderem enxergar o que se passava no
mundo exterior, uma vez que se encontravam imobilizados, acorrentados pelo pescoço e
presos de costas para a entrada. O único e exclusivo acesso visual para o mundo exterior restringia-se às sombras dos objetos que se projetavam através da entrada da caverna e,uma vez que o lume da fogueira reproduzia a imagem dos corpos exteriores no interior da caverna, fácil é imaginar, segundo o grande filósofo, que esses homens tomassem essas sombras pela verdadeira realidade, posto que desta nada conheciam de fato.

Apresentamos, assim, o mito da caverna de Platão com o objetivo de revelar a
preocupação filosófica não com o conhecimento analisado na sua forma mais simples,
mas sim com o conhecimento verdadeiro, razão de ser da Filosofia. Há no surgimento
da filosofia este compromisso com o conhecimento e com a verdade, pois filósofo é
aquele que ama o conhecer, o saber, consciente de que esse é um amor exigente,
requerendo do filósofo não qualquer conhecimento, mas somente aquele que é
verdadeiro.

Platão, com a metáfora dos prisioneiros da caverna, sinaliza-nos de forma clara que o
conhecimento verdadeiro não é A sombra de uma realidade inatingível, isto é, não se
trata simplesmente do vislumbre de algo exterior ao homem, mas daquilo que a razão
humana pode apreender.

Sob sua ótica, esta apreensão implica certo olhar interior, o olhar do intelecto, visto que somente este pode discernir o verdadeiro do falso.

É certo que Platão, por se inserir dentro da corrente filosófica intelectualista, privilegia o conhecimento intelectual em detrimento do conhecimento sensível. Aliás, no sentido platônico, o conhecimento sensível é concebido como enganoso capaz de levar o
homem ao erro, conforme ocorreu com os tais prisioneiros do mito da caverna, quando
avistavam apenas sombras de objetos, acreditando serem elas a verdadeira essência.

1. DOIS OLHARES: OLHAR EXTERIOR E INTERIOR;
CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELECTUAL

Dito isso, importa-nos aqui estabelecer uma conexão entre esses dois olhares humanos,
isto é, entre dois olhares: interior e exterior do homem, buscando condição de
convergência entre os sentidos e a razão, ou caçando ainda um meio-termo, o que nos
reporta a um conceito aristotélico.

Não pretendemos, com essa breve reflexão, promover uma incursão no pensamento de
Aristóteles. Vamos isso sim, nos ater às ideias do magno pensador Santo Agostinho,
que sem dúvida leu o grande estagirita e seu mestre e propôs outra interpretação para
explicar como o homem chega ao conhecimento verdadeiro a partir desses olhares.

Em suas famosas Confissões, o grande bispo hiponense nos revela que:
os homens vão admirar os cumes das montanhas, as ondas do mar, as largas correntes
dos rios, o oceano, o movimento dos astros […] e não se admiram do fato de eu falar de todas essas coisas sem vê-las com os próprios olhos; mas eu não poderia mencionar tais coisas se não as visse, na memória, em toda a sua imensidão, como se tivesse diante de mim as montanhas, as ondas,os rios e os astros, que vi pessoalmente, e o oceano, no qual acredito. No entanto, quando os vi com os olhos, não os absorvi; são as imagens deles que em mim residem, e não eles próprios. E sei através de qual sentido do corpo me foi impressa cada imagem.

Para Santo Agostinho, o conhecimento sensível implica um duplo olhar humano
presente na memória, que se consubstancia nas visões exterior e interior da alma. A
alma é a parte interior do homem, sua mente, e através dela podemos conhecer a
realidade, já que é nela que residem a inteligência e a memória.

Ainda conforme Agostinho, a inteligência se revela como o processo de
autoconhecimento da alma, ou seja, a visão do pensamento de si mesmo, podendo, a
partir daí, conhecer as coisas inteligíveis, ciente de que a memória é um vasto palácio, certa presença em nós das nossas lembranças, daquilo que vivemos e sentimos
(sensações e sentimentos). Enfim, daquilo que somos e de como somos.

Grosso modo, podemos entender a teoria agostiana a respeito do conhecimento sensível
da seguinte forma: os nossos sentidos são afetados pelos objetos materiais; a alma,
alertando os sentidos do corpo, capta essa alteração e, a partir da sensação gerada em
seu interior, extrai as imagens dos objetos.

A visão exterior da alma diz respeito à presença do objeto, afetando diretamente os
nossos sentidos.

A visão interior pode ser concebida como o olhar do pensamento voltado às imagens
colhidas durante o processo perceptivo: na ausência do objeto, a mente procura na
memória as imagens percebidas, emergindo então a imagem do objeto na forma de
lembrança.

O sentido da visão é utilizado por Santo Agostinho para exemplificar o que ocorre com
os demais sentidos, no processo perceptivo; o bispo hiponense, contudo, revela uma
predileção por ele, pois a visão é de todos os sentidos: aquele que estabelece uma
melhor analogia com o olhar da inteligência.

Ora, no processo do conhecimento sensível, como observamos, a alma gera um elo entre
sensação e pensamento, originando a percepção. Portanto, o conhecimento sensível
implica necessariamente um conhecimento inteligível, que podemos traduzir como a
mente dando sentido à sensação: a analogia agostiniana se apoia e é explicitada pelo
próprio processo da percepção.

Seguindo a herança do pensamento platônico, o grande bispo atribui ao
autoconhecimento o princípio do verdadeiro conhecimento. Neste sentido, o
conhecimento sensível é uma das etapas do processo do conhecimento de si, pois sendo
a alma uma substância incorpórea deve se distinguir daquilo que é corpóreo para se
conhecer. Todavia, o entendimento agostiniano se afasta do platonismo, ou seja, da
ideia platônica de que o conhecimento sensível pode nos induzir ao erro, pois se
erramos segundo Santo Agostinho, não é pela sensação, não é pelo corpo que se erra,
mas pela alma, que por meio do pensamento cogitante pode se confundir, atribuindo, no
caso, materialidade àquilo que é imaterial.

2. O OLHAR DO PENSAMENTO EM SENTIDO AGOSTINIANO

A ideia de uma visão interior, isto é, do olhar do pensamento, também possibilita
entender, em sentido agostiniano, como a alma possui conceitos concernentes à sua
natureza, tais como o que é o belo, o bom, o justo, dentre outros conceitos, de forma
que, por exemplo, mesmo sendo injusto, o homem pode perceber quando sofre alguma
injustiça. Esses conceitos são chamados pelo bispo hiponense de razões e verdades
eternas.

Possuímos no cerne do nosso ser essas noções fundamentais que possibilitam o
julgamento da razão e nos chegam ao olhar da mente por meio de uma iluminação,
identificada por Santo Agostinho, como a Suprema Verdade, qual seja, a divindade
cristã, que é também Suma Sabedoria.

CONCLUSÃO

Retornemos àquela caverna sobre a qual discorríamos no início e eis que, já quase ao
final do relato, Platão nos incita a imaginar que, caso um daqueles prisioneiros se
encontrasse liberto, cambaleante, divisando o horizonte já do lado de fora da caverna,
seus olhos poderiam não estar resistentes à luz do sol, posto que estavam acostumados
com a fraca luminosidade da fogueira. Aqui, a analogia entre o conhecimento
verdadeiro e a luz do sol é praticamente imediata e os olhos semicegos se afiguram
como aquelas inteligências que, tardando nas sombras da ignorância, são
momentaneamente ofuscadas pelo conhecimento verdadeiro. Para concluir, Platão
identificava o prisioneiro liberto como o filósofo, e a Filosofia como o grande sol que
poderia iluminar os olhos da inteligência da humanidade, dissipando as trevas da
ignorância. Em tempos de pós-modernidade, quem sabe não estejamos céticos quanto à
conclusão platônica, que atribuía somente à razão o poder de transformar trevas em luz,
principalmente quando essas trevas se traduzem como violência do homem contra o
homem. São trevas de balas perdidas, de lutas étnico-religiosas, da guerrilha urbana
instituída pelo narcotráfico, da intolerância com o diferente, da corrupção do poder
público, enfim, trevas que se instauraram, há séculos, entre os humanos.
No século que se passou a humanidade não vivenciou a paz, infelizmente, por um dia
sequer, induzindo-nos ao contrassenso se levarmos em consideração que nunca antes a
racionalidade científica experimentou avanços tecnológicos tão significativos como os
que ocorreram no século XX. Diante disso, urge que reivindiquemos antigos
pensadores. Erasmo de Roterdam,3 com o seu tratado sobre a tolerância e Santo
Agostinho, com suas incursões sobre o conhecimento e o amor, são autores que, embora
distantes no tempo, parecem-nos mais atuais do que nunca e, por expressarem olhares
diferentes, nos sugerem uma releitura dessas realidades sombrias.

Por.:Professor Dr. José Roberto Abreu de Mattos
Doutor em Filosofia pela Universidade São Tomás
de Aquino (Angelicum) – Roma. Professor de Filosofia
e Teologia na Pontifícia Universidade de São Paulo (PUCSP).