O DESEJO DE CONHECER

Em um dos mitos mais famosos registrados pela História da Filosofia, Platão nos conta
que alguns homens se encontravam presos no interior de uma caverna,1 induzindo-nos
imaginar, de acordo com a descrição dos detalhes dessa prisão-caverna, que se assim
permaneciam desde que nasceram desconheciam, por decorrência, o mundo exterior.
Entre esses prisioneiros e a liberdade, ou seja, no limite da entrada da caverna, ardia
uma fogueira que impedia esses homens de poderem enxergar o que se passava no
mundo exterior, uma vez que se encontravam imobilizados, acorrentados pelo pescoço e
presos de costas para a entrada. O único e exclusivo acesso visual para o mundo exterior restringia-se às sombras dos objetos que se projetavam através da entrada da caverna e,uma vez que o lume da fogueira reproduzia a imagem dos corpos exteriores no interior da caverna, fácil é imaginar, segundo o grande filósofo, que esses homens tomassem essas sombras pela verdadeira realidade, posto que desta nada conheciam de fato.

Apresentamos, assim, o mito da caverna de Platão com o objetivo de revelar a
preocupação filosófica não com o conhecimento analisado na sua forma mais simples,
mas sim com o conhecimento verdadeiro, razão de ser da Filosofia. Há no surgimento
da filosofia este compromisso com o conhecimento e com a verdade, pois filósofo é
aquele que ama o conhecer, o saber, consciente de que esse é um amor exigente,
requerendo do filósofo não qualquer conhecimento, mas somente aquele que é
verdadeiro.

Platão, com a metáfora dos prisioneiros da caverna, sinaliza-nos de forma clara que o
conhecimento verdadeiro não é A sombra de uma realidade inatingível, isto é, não se
trata simplesmente do vislumbre de algo exterior ao homem, mas daquilo que a razão
humana pode apreender.

Sob sua ótica, esta apreensão implica certo olhar interior, o olhar do intelecto, visto que somente este pode discernir o verdadeiro do falso.

É certo que Platão, por se inserir dentro da corrente filosófica intelectualista, privilegia o conhecimento intelectual em detrimento do conhecimento sensível. Aliás, no sentido platônico, o conhecimento sensível é concebido como enganoso capaz de levar o
homem ao erro, conforme ocorreu com os tais prisioneiros do mito da caverna, quando
avistavam apenas sombras de objetos, acreditando serem elas a verdadeira essência.

1. DOIS OLHARES: OLHAR EXTERIOR E INTERIOR;
CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELECTUAL

Dito isso, importa-nos aqui estabelecer uma conexão entre esses dois olhares humanos,
isto é, entre dois olhares: interior e exterior do homem, buscando condição de
convergência entre os sentidos e a razão, ou caçando ainda um meio-termo, o que nos
reporta a um conceito aristotélico.

Não pretendemos, com essa breve reflexão, promover uma incursão no pensamento de
Aristóteles. Vamos isso sim, nos ater às ideias do magno pensador Santo Agostinho,
que sem dúvida leu o grande estagirita e seu mestre e propôs outra interpretação para
explicar como o homem chega ao conhecimento verdadeiro a partir desses olhares.

Em suas famosas Confissões, o grande bispo hiponense nos revela que:
os homens vão admirar os cumes das montanhas, as ondas do mar, as largas correntes
dos rios, o oceano, o movimento dos astros […] e não se admiram do fato de eu falar de todas essas coisas sem vê-las com os próprios olhos; mas eu não poderia mencionar tais coisas se não as visse, na memória, em toda a sua imensidão, como se tivesse diante de mim as montanhas, as ondas,os rios e os astros, que vi pessoalmente, e o oceano, no qual acredito. No entanto, quando os vi com os olhos, não os absorvi; são as imagens deles que em mim residem, e não eles próprios. E sei através de qual sentido do corpo me foi impressa cada imagem.

Para Santo Agostinho, o conhecimento sensível implica um duplo olhar humano
presente na memória, que se consubstancia nas visões exterior e interior da alma. A
alma é a parte interior do homem, sua mente, e através dela podemos conhecer a
realidade, já que é nela que residem a inteligência e a memória.

Ainda conforme Agostinho, a inteligência se revela como o processo de
autoconhecimento da alma, ou seja, a visão do pensamento de si mesmo, podendo, a
partir daí, conhecer as coisas inteligíveis, ciente de que a memória é um vasto palácio, certa presença em nós das nossas lembranças, daquilo que vivemos e sentimos
(sensações e sentimentos). Enfim, daquilo que somos e de como somos.

Grosso modo, podemos entender a teoria agostiana a respeito do conhecimento sensível
da seguinte forma: os nossos sentidos são afetados pelos objetos materiais; a alma,
alertando os sentidos do corpo, capta essa alteração e, a partir da sensação gerada em
seu interior, extrai as imagens dos objetos.

A visão exterior da alma diz respeito à presença do objeto, afetando diretamente os
nossos sentidos.

A visão interior pode ser concebida como o olhar do pensamento voltado às imagens
colhidas durante o processo perceptivo: na ausência do objeto, a mente procura na
memória as imagens percebidas, emergindo então a imagem do objeto na forma de
lembrança.

O sentido da visão é utilizado por Santo Agostinho para exemplificar o que ocorre com
os demais sentidos, no processo perceptivo; o bispo hiponense, contudo, revela uma
predileção por ele, pois a visão é de todos os sentidos: aquele que estabelece uma
melhor analogia com o olhar da inteligência.

Ora, no processo do conhecimento sensível, como observamos, a alma gera um elo entre
sensação e pensamento, originando a percepção. Portanto, o conhecimento sensível
implica necessariamente um conhecimento inteligível, que podemos traduzir como a
mente dando sentido à sensação: a analogia agostiniana se apoia e é explicitada pelo
próprio processo da percepção.

Seguindo a herança do pensamento platônico, o grande bispo atribui ao
autoconhecimento o princípio do verdadeiro conhecimento. Neste sentido, o
conhecimento sensível é uma das etapas do processo do conhecimento de si, pois sendo
a alma uma substância incorpórea deve se distinguir daquilo que é corpóreo para se
conhecer. Todavia, o entendimento agostiniano se afasta do platonismo, ou seja, da
ideia platônica de que o conhecimento sensível pode nos induzir ao erro, pois se
erramos segundo Santo Agostinho, não é pela sensação, não é pelo corpo que se erra,
mas pela alma, que por meio do pensamento cogitante pode se confundir, atribuindo, no
caso, materialidade àquilo que é imaterial.

2. O OLHAR DO PENSAMENTO EM SENTIDO AGOSTINIANO

A ideia de uma visão interior, isto é, do olhar do pensamento, também possibilita
entender, em sentido agostiniano, como a alma possui conceitos concernentes à sua
natureza, tais como o que é o belo, o bom, o justo, dentre outros conceitos, de forma
que, por exemplo, mesmo sendo injusto, o homem pode perceber quando sofre alguma
injustiça. Esses conceitos são chamados pelo bispo hiponense de razões e verdades
eternas.

Possuímos no cerne do nosso ser essas noções fundamentais que possibilitam o
julgamento da razão e nos chegam ao olhar da mente por meio de uma iluminação,
identificada por Santo Agostinho, como a Suprema Verdade, qual seja, a divindade
cristã, que é também Suma Sabedoria.

CONCLUSÃO

Retornemos àquela caverna sobre a qual discorríamos no início e eis que, já quase ao
final do relato, Platão nos incita a imaginar que, caso um daqueles prisioneiros se
encontrasse liberto, cambaleante, divisando o horizonte já do lado de fora da caverna,
seus olhos poderiam não estar resistentes à luz do sol, posto que estavam acostumados
com a fraca luminosidade da fogueira. Aqui, a analogia entre o conhecimento
verdadeiro e a luz do sol é praticamente imediata e os olhos semicegos se afiguram
como aquelas inteligências que, tardando nas sombras da ignorância, são
momentaneamente ofuscadas pelo conhecimento verdadeiro. Para concluir, Platão
identificava o prisioneiro liberto como o filósofo, e a Filosofia como o grande sol que
poderia iluminar os olhos da inteligência da humanidade, dissipando as trevas da
ignorância. Em tempos de pós-modernidade, quem sabe não estejamos céticos quanto à
conclusão platônica, que atribuía somente à razão o poder de transformar trevas em luz,
principalmente quando essas trevas se traduzem como violência do homem contra o
homem. São trevas de balas perdidas, de lutas étnico-religiosas, da guerrilha urbana
instituída pelo narcotráfico, da intolerância com o diferente, da corrupção do poder
público, enfim, trevas que se instauraram, há séculos, entre os humanos.
No século que se passou a humanidade não vivenciou a paz, infelizmente, por um dia
sequer, induzindo-nos ao contrassenso se levarmos em consideração que nunca antes a
racionalidade científica experimentou avanços tecnológicos tão significativos como os
que ocorreram no século XX. Diante disso, urge que reivindiquemos antigos
pensadores. Erasmo de Roterdam,3 com o seu tratado sobre a tolerância e Santo
Agostinho, com suas incursões sobre o conhecimento e o amor, são autores que, embora
distantes no tempo, parecem-nos mais atuais do que nunca e, por expressarem olhares
diferentes, nos sugerem uma releitura dessas realidades sombrias.

Por.:Professor Dr. José Roberto Abreu de Mattos
Doutor em Filosofia pela Universidade São Tomás
de Aquino (Angelicum) – Roma. Professor de Filosofia
e Teologia na Pontifícia Universidade de São Paulo (PUCSP).

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