Dignidade no exercício do ministério litúrgico

A ação litúrgica e a participação ativa e consciente da assembleia são servidas por ministérios e serviços multiformes suscitados pelo Espírito, em sua Igreja.
Conforme o número 26 da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, a Sacrosanctum Concilium (SC), a liturgia, como ação de Cristo e da Igreja, é uma ação ministerial que atinge a cada um dos seus membros de forma diferente, conforme a diversidade de ordens, ofícios e da participação atual. Cada um a seu modo contribui para a edificação do corpo eclesial, através do exercício dos ministérios e funções, das quais destacamos os ministérios ordenados, os instituídos, os confiados, ministros/as extraordinários da sagrada comunhão, ministros/as extraordinários do Batismo, assistentes leigos do Matrimônio, ministros/as da presidência da celebração dominical da Palavra e outras funções ministeriais e serviços litúrgicos.
Os ministérios não instituídos, de forma estável ou ocasional, pode ser um serviço litúrgico, como coroinhas, leitores, salmistas, grupo de cantores, instrumentistas, regente de coral ou do canto, sacristães, animadores/as, os que fazem a coleta, recepcionistas, mestre de cerimônias e outros. Mas, ainda, muitos homens e mulheres prestam serviços espontâneos que tornam a celebração mais participada.
Se a comunicação é celebrativa do mistério de Deus, ela acontece graças ao corpo e ao espírito, ou seja, a pessoa toda é envolvida na percepção do escondido no seu próprio interior e no interior da comunidade toda. No exercício do ministério litúrgico a comunicação humana passa pela mediação dos símbolos, que toca os sentidos e atinge o interior, que se expressa na postura, nos gestos, no canto, na fala, nos rosto, nas vestes, na presença em si, que irradia o Mistério de Cristo.
A maneira de vestir ajuda a conduzir ao mistério de Cristo, para isso, quem exerce um ministério litúrgico, não instituído, é convidado a fazer uso de veste adequada. A variedade das vestes litúrgicas manifesta a diversidade dos ministérios exercidos na liturgia e é sinal da função de cada um. A veste dá o sentido do revestir-se de Cristo, de sua autoridade, do seu serviço. Assim, convém que a veste litúrgica contribua para a beleza da ação sagrada e para a dignidade do ministério litúrgico. Ela reveste o ser humano e complementa ao mesmo tempo a constituição de seu corpo, revelando o seu interior. Um provérbio assim expressa, do jeito que te vestes, se vê de que jeito tu és!
A veste é um símbolo, que comunica e revela uma força simbólica, que ultrapassa o seu simples uso, porque o ser humano vai muito além de sua corporeidade. Ela expressa, não só as situações humanas, mas o exercício de uma função, de um serviço, de uma natureza. Em se tratando de vestimenta de celebrar o mistério da fé, a reunião fraternal da comunidade que se encontra e a esperança-certeza da festa eterna no céu, ela se transforma numa linguagem expressiva e altamente simbólica.
Quanto mais é sublime e transcendente o que temos a comunicar ou a celebrar, tanto mais necessitamos destes sinais sensíveis, que velam e revelam o escondido, o mistério que esconde cada sinal. Neste sentido, a veste litúrgica se torna uma mediação na comunicação com Deus. Esta comunicação exige, (a) consciência, sensibilidade, respeito e dimensão interior, que manifeste o que se está celebrando em comunidade e não o individualismo de um lugar qualquer. (b) Simplicidade, despojamento, em sintonia com a Palavra, com a pobreza da Mesa da refeição, com o compromisso de serviço à comunidade e também, em sintonia com o despojamento do mistério. (c) Beleza e equilíbrio, dignos da função que está sendo exercida, que harmoniza dignidade e serviço. Algo bonito, que faz bem aos olhos e ao coração. (d) Formas inculturadas na realidade social e cristã, por isso, variadas, mas que guardem seu valor simbólico, que expressam o humano e o litúrgico da fé, bem como a comunhão com a Trindade e com os irmãos e irmãs. (e) Alegria de festa num dia especial do Senhor e exige também, um vestir com dignidade.
Perguntas para reflexão pessoal e em grupos
1. O que de significativo ou importante pode ser destacado no texto e, como liga isso à sua comunidade?
2. O que se entende por ministério litúrgico? Por onde passa o seu exercício com dignidade?
3. Qual é o sentido da veste litúrgica? Sendo ela uma mediação na comunicação com Deus, o que exige?
Por Mirte Santina Pagnussat

O DESEJO DE CONHECER

Em um dos mitos mais famosos registrados pela História da Filosofia, Platão nos conta
que alguns homens se encontravam presos no interior de uma caverna,1 induzindo-nos
imaginar, de acordo com a descrição dos detalhes dessa prisão-caverna, que se assim
permaneciam desde que nasceram desconheciam, por decorrência, o mundo exterior.
Entre esses prisioneiros e a liberdade, ou seja, no limite da entrada da caverna, ardia
uma fogueira que impedia esses homens de poderem enxergar o que se passava no
mundo exterior, uma vez que se encontravam imobilizados, acorrentados pelo pescoço e
presos de costas para a entrada. O único e exclusivo acesso visual para o mundo exterior restringia-se às sombras dos objetos que se projetavam através da entrada da caverna e,uma vez que o lume da fogueira reproduzia a imagem dos corpos exteriores no interior da caverna, fácil é imaginar, segundo o grande filósofo, que esses homens tomassem essas sombras pela verdadeira realidade, posto que desta nada conheciam de fato.

Apresentamos, assim, o mito da caverna de Platão com o objetivo de revelar a
preocupação filosófica não com o conhecimento analisado na sua forma mais simples,
mas sim com o conhecimento verdadeiro, razão de ser da Filosofia. Há no surgimento
da filosofia este compromisso com o conhecimento e com a verdade, pois filósofo é
aquele que ama o conhecer, o saber, consciente de que esse é um amor exigente,
requerendo do filósofo não qualquer conhecimento, mas somente aquele que é
verdadeiro.

Platão, com a metáfora dos prisioneiros da caverna, sinaliza-nos de forma clara que o
conhecimento verdadeiro não é A sombra de uma realidade inatingível, isto é, não se
trata simplesmente do vislumbre de algo exterior ao homem, mas daquilo que a razão
humana pode apreender.

Sob sua ótica, esta apreensão implica certo olhar interior, o olhar do intelecto, visto que somente este pode discernir o verdadeiro do falso.

É certo que Platão, por se inserir dentro da corrente filosófica intelectualista, privilegia o conhecimento intelectual em detrimento do conhecimento sensível. Aliás, no sentido platônico, o conhecimento sensível é concebido como enganoso capaz de levar o
homem ao erro, conforme ocorreu com os tais prisioneiros do mito da caverna, quando
avistavam apenas sombras de objetos, acreditando serem elas a verdadeira essência.

1. DOIS OLHARES: OLHAR EXTERIOR E INTERIOR;
CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELECTUAL

Dito isso, importa-nos aqui estabelecer uma conexão entre esses dois olhares humanos,
isto é, entre dois olhares: interior e exterior do homem, buscando condição de
convergência entre os sentidos e a razão, ou caçando ainda um meio-termo, o que nos
reporta a um conceito aristotélico.

Não pretendemos, com essa breve reflexão, promover uma incursão no pensamento de
Aristóteles. Vamos isso sim, nos ater às ideias do magno pensador Santo Agostinho,
que sem dúvida leu o grande estagirita e seu mestre e propôs outra interpretação para
explicar como o homem chega ao conhecimento verdadeiro a partir desses olhares.

Em suas famosas Confissões, o grande bispo hiponense nos revela que:
os homens vão admirar os cumes das montanhas, as ondas do mar, as largas correntes
dos rios, o oceano, o movimento dos astros […] e não se admiram do fato de eu falar de todas essas coisas sem vê-las com os próprios olhos; mas eu não poderia mencionar tais coisas se não as visse, na memória, em toda a sua imensidão, como se tivesse diante de mim as montanhas, as ondas,os rios e os astros, que vi pessoalmente, e o oceano, no qual acredito. No entanto, quando os vi com os olhos, não os absorvi; são as imagens deles que em mim residem, e não eles próprios. E sei através de qual sentido do corpo me foi impressa cada imagem.

Para Santo Agostinho, o conhecimento sensível implica um duplo olhar humano
presente na memória, que se consubstancia nas visões exterior e interior da alma. A
alma é a parte interior do homem, sua mente, e através dela podemos conhecer a
realidade, já que é nela que residem a inteligência e a memória.

Ainda conforme Agostinho, a inteligência se revela como o processo de
autoconhecimento da alma, ou seja, a visão do pensamento de si mesmo, podendo, a
partir daí, conhecer as coisas inteligíveis, ciente de que a memória é um vasto palácio, certa presença em nós das nossas lembranças, daquilo que vivemos e sentimos
(sensações e sentimentos). Enfim, daquilo que somos e de como somos.

Grosso modo, podemos entender a teoria agostiana a respeito do conhecimento sensível
da seguinte forma: os nossos sentidos são afetados pelos objetos materiais; a alma,
alertando os sentidos do corpo, capta essa alteração e, a partir da sensação gerada em
seu interior, extrai as imagens dos objetos.

A visão exterior da alma diz respeito à presença do objeto, afetando diretamente os
nossos sentidos.

A visão interior pode ser concebida como o olhar do pensamento voltado às imagens
colhidas durante o processo perceptivo: na ausência do objeto, a mente procura na
memória as imagens percebidas, emergindo então a imagem do objeto na forma de
lembrança.

O sentido da visão é utilizado por Santo Agostinho para exemplificar o que ocorre com
os demais sentidos, no processo perceptivo; o bispo hiponense, contudo, revela uma
predileção por ele, pois a visão é de todos os sentidos: aquele que estabelece uma
melhor analogia com o olhar da inteligência.

Ora, no processo do conhecimento sensível, como observamos, a alma gera um elo entre
sensação e pensamento, originando a percepção. Portanto, o conhecimento sensível
implica necessariamente um conhecimento inteligível, que podemos traduzir como a
mente dando sentido à sensação: a analogia agostiniana se apoia e é explicitada pelo
próprio processo da percepção.

Seguindo a herança do pensamento platônico, o grande bispo atribui ao
autoconhecimento o princípio do verdadeiro conhecimento. Neste sentido, o
conhecimento sensível é uma das etapas do processo do conhecimento de si, pois sendo
a alma uma substância incorpórea deve se distinguir daquilo que é corpóreo para se
conhecer. Todavia, o entendimento agostiniano se afasta do platonismo, ou seja, da
ideia platônica de que o conhecimento sensível pode nos induzir ao erro, pois se
erramos segundo Santo Agostinho, não é pela sensação, não é pelo corpo que se erra,
mas pela alma, que por meio do pensamento cogitante pode se confundir, atribuindo, no
caso, materialidade àquilo que é imaterial.

2. O OLHAR DO PENSAMENTO EM SENTIDO AGOSTINIANO

A ideia de uma visão interior, isto é, do olhar do pensamento, também possibilita
entender, em sentido agostiniano, como a alma possui conceitos concernentes à sua
natureza, tais como o que é o belo, o bom, o justo, dentre outros conceitos, de forma
que, por exemplo, mesmo sendo injusto, o homem pode perceber quando sofre alguma
injustiça. Esses conceitos são chamados pelo bispo hiponense de razões e verdades
eternas.

Possuímos no cerne do nosso ser essas noções fundamentais que possibilitam o
julgamento da razão e nos chegam ao olhar da mente por meio de uma iluminação,
identificada por Santo Agostinho, como a Suprema Verdade, qual seja, a divindade
cristã, que é também Suma Sabedoria.

CONCLUSÃO

Retornemos àquela caverna sobre a qual discorríamos no início e eis que, já quase ao
final do relato, Platão nos incita a imaginar que, caso um daqueles prisioneiros se
encontrasse liberto, cambaleante, divisando o horizonte já do lado de fora da caverna,
seus olhos poderiam não estar resistentes à luz do sol, posto que estavam acostumados
com a fraca luminosidade da fogueira. Aqui, a analogia entre o conhecimento
verdadeiro e a luz do sol é praticamente imediata e os olhos semicegos se afiguram
como aquelas inteligências que, tardando nas sombras da ignorância, são
momentaneamente ofuscadas pelo conhecimento verdadeiro. Para concluir, Platão
identificava o prisioneiro liberto como o filósofo, e a Filosofia como o grande sol que
poderia iluminar os olhos da inteligência da humanidade, dissipando as trevas da
ignorância. Em tempos de pós-modernidade, quem sabe não estejamos céticos quanto à
conclusão platônica, que atribuía somente à razão o poder de transformar trevas em luz,
principalmente quando essas trevas se traduzem como violência do homem contra o
homem. São trevas de balas perdidas, de lutas étnico-religiosas, da guerrilha urbana
instituída pelo narcotráfico, da intolerância com o diferente, da corrupção do poder
público, enfim, trevas que se instauraram, há séculos, entre os humanos.
No século que se passou a humanidade não vivenciou a paz, infelizmente, por um dia
sequer, induzindo-nos ao contrassenso se levarmos em consideração que nunca antes a
racionalidade científica experimentou avanços tecnológicos tão significativos como os
que ocorreram no século XX. Diante disso, urge que reivindiquemos antigos
pensadores. Erasmo de Roterdam,3 com o seu tratado sobre a tolerância e Santo
Agostinho, com suas incursões sobre o conhecimento e o amor, são autores que, embora
distantes no tempo, parecem-nos mais atuais do que nunca e, por expressarem olhares
diferentes, nos sugerem uma releitura dessas realidades sombrias.

Por.:Professor Dr. José Roberto Abreu de Mattos
Doutor em Filosofia pela Universidade São Tomás
de Aquino (Angelicum) – Roma. Professor de Filosofia
e Teologia na Pontifícia Universidade de São Paulo (PUCSP).

PARTICIPAÇÃO SOCIAL, O NOVO FANTASMA DAS ELITES

 Ladislau Dowbor *

O texto na nossa Constituição é claro, e se trata nada menos do que do fundamento da democracia: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.” Está logo no artigo 1º, e garante portanto a participação cidadã através de representantes ou diretamente. Ver na aplicação deste artigo, por um presidente eleito, e que jurou defender a Constituição, um atentado à democracia não pode ser ignorância: é vulgar defesa de interesses elitistas por quem detesta ver cidadãos se imiscuindo na política. Preferem se entender com representantes.

A democracia participativa em nenhum lugar substituiu a democracia representativa. São duas dimensões de exercício da gestão pública. A verdade é que todos os partidos, de todos os horizontes, sempre convocaram nos seus discursos a que população participe, apoie, critique, fiscalize, exerça os seus direitos cidadãos. Mas quando um governo eleito gera espaços institucionais para que a população possa participar efetivamente, de maneira organizada, os agrupamentos da direita invertem o discurso.

É útil lembrar aqui as manifestações de junho do ano passado. As multidões que manifestaram buscavam mais quantidade e qualidade em mobilidade urbana, saúde, educação e semelhantes. Saíram às ruas justamente porque as instâncias representativas não constituíam veículo suficiente de transmissão das necessidades da população para a máquina pública nos seus diversos níveis. Em outros termos, faltavam correias de transmissão entre as necessidades da população e os processos decisórios.

Os resultados foram que se construíram viadutos e outras infraestruturas para carros, desleixando o transporte coletivo de massa e paralisando as cidades. Uma Sabesp vende água, o que rende dinheiro, mas não investe em esgotos e tratamento, pois é custo, e o resultado é uma cidade rica como São Paulo que vive rodeada de esgotos a céu aberto, gerando contaminação a cada enchente. Esta dinâmica pode ser encontrada em cada cidade do país onde são algumas empreiteiras e especuladores imobiliários que mandam na política tradicional, priorizando o lucro corporativo em vez de buscar o bem estar da população.

Participação funciona. Nada como criar espaços para que seja ouvida a população, se queremos ser eficientes. Ninguém melhor do que um residente de um bairro para saber quais ruas se enchem de lama quando chove. As horas que as pessoas passam no ponto de ônibus e no trânsito diariamente as levam a engolir a revolta, ou sair indignadas às ruas. Mas o que as pessoas necessitam é justamente ter canais de expressão das suas prioridades, em vez de ver nos jornais e na televisão a inauguração de mais um viaduto. Trata-se aqui, ao gerar canais de participação, de aproximar o uso dos recursos públicos das necessidades reais da população. Inaugurar viaduto permite belas imagens; saneamento básico e tratamento de esgotos muito menos.

Mas se para muitos, e em particular para a grande mídia, trata-se de uma defesa deslavada da política de alcova, para muitos também se trata de uma incompreensão das próprias dinâmicas mais modernas de gestão pública.

Um ponto chave, é que o desenvolvimento que todos queremos está cada vez mais ligado à educação, saúde, mobilidade urbana, cultura, lazer e semelhantes. Quando as pessoas falam em crescimento da economia, ainda pensam em comércio, automóvel e semelhantes. A grande realidade é que o essencial dos processos produtivos se deslocou para as chamadas políticas sociais. O maior setor econômico dos Estados Unidos, para dar um exemplo, é a saúde, representando 18,1% do PIB. A totalidade dos setores industriais nos EUA emprega hoje menos de 10% da população ativa. Se somarmos saúde, educação, cultura, esporte, lazer, segurança e semelhantes, todos diretamente ligados ao bem estar da população, temos aqui o que é o principal vetor de desenvolvimento. Investir na população, no seu bem estar, na sua cultura e educação, é o que mais rende. Não é gasto, é investimento nas pessoas.

A característica destes setores dinâmicos da sociedade moderna é que são capilares, têm de chegar de maneira diferenciada a cada cidadão, a cada criança, a cada casa, a cada bairro. E de maneira diferenciada porque no agreste terá papel central a água; na metrópole, a mobilidade e a segurança e assim por diante. Aqui funciona mal a política centralizada e padronizada para todos: a flexibilidade e ajuste fino ao que as populações precisam e desejam são fundamentais, e isto exige políticas participativas. Produzir tênis pode ser feito em qualquer parte do mundo, coloca-se em contêiner e se despacha para o resto do mundo. Saúde, cultura, educação não são enlatados que se despacham. São formas densas de organização da sociedade.

Eu sou economista, e faço as contas. Entre outras contas, fizemos na Pós-Graduação em Administração da PUC-SP um estudo da Pastoral da Criança. É um gigante, mais de 450 mil pessoas, organizadas em rede, de maneira participativa e descentralizada. Conseguem reduzir radicalmente, nas regiões onde trabalham, tanto a mortalidade infantil como as hospitalizações. O custo total por criança é de 1,70 reais por mês. A revista Exame publica um estudo sobre esta Organização da Sociedade Civil (OSC), porque tenta entender como se consegue tantos resultados com tão poucos recursos. Não há provavelmente instituição mais competitiva, mais eficiente do que a Pastoral, se comparada com as grandes empresas, bancos ou planos privados de saúde. Cada real que chega a organizações deste tipo se multiplica.

A explicação desta eficiência é simples: cada mãe está interessada em que o seu filho não fique doente, e a mobilização deste interesse torna qualquer iniciativa muito mais produtiva. Gera-se uma parceria em que a política pública se apoia no interesse que a sociedade tem de assegurar os resultados que lhe interessam. A eficiência aqui não é porque se aplicou a última recomendação dos consultores em kai-ban, kai-zen, just-in-time, lean-and-mean, TQM e semelhantes, mas simplesmente porque se assegurou que os destinatários finais das políticas se apropriem do processo, controlem os resultados.

As organizações da sociedade civil têm as suas raízes nas comunidades onde residem, podem melhor dar expressão organizada às demandas, e sobre tudo tendem a assegurar a capilaridade das políticas públicas. Nos Estados Unidos, as OSCs da área da saúde administram grande parte dos projetos, simplesmente porque são mais eficientes. Não seriam mais eficientes para produzir automóveis ou represas hidroelétricas. Mas nas áreas sociais, no controle das políticas ambientais, no conjunto das atividades diretamente ligadas à qualidade do cotidiano, são simplesmente indispensáveis. O setor público tem tudo a ganhar com este tipo de parcerias. E fica até estranho os mesmos meios políticos e empresariais que tanto defendem as parceiras público-privadas (PPPs), ficarem tão indignados quando aparece a perspectiva de parcerias com as organizações sociais. O seu conceito de privado é muito estreito.

Eu, de certa forma graças aos militares, conheci muitas experiências pelo mundo afora, trabalhando nas Nações Unidas. Todos os países desenvolvidos têm ampla experiência, muito bem sucedida, de sistemas descentralizados e participativos, de conselhos comunitários e outras estruturas semelhantes. Isto não só torna as políticas mais eficientes, como gera transparência. É bom que tanto as instituições públicas como as empresas privadas que executam as políticas tenham de prestar contas. Democracia, transparência, participação e prestação de contas fazem bem para todos. Espalhar ódio em nome da democracia não ajuda nada.

* Economista, escritor, doutor em Ciências Econômicas. Professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Administração e Economia, atuando principalmente nos seguintes temas: mudança tecnológica, economia dos recursos humanos, economia regional e urbana, planejamento educacional e economia internacional.