SOBRE FÉ E FUTEBOL

Magali Cunha *

Semanas atrás fui convidada pelo Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, da Igreja Assembleia de Deus Betesda, para participar de um debate sobre fé e futebol. A pergunta era: “existe um lado bom no fanatismo?” Para me preparar mergulhei numa reflexão muito instigante. Primeiramente: qual é a relação entre fé e futebol?

Nenhum outro esporte mobiliza tanto os brasileiros quanto o futebol, que é, de fato, historicamente, uma paixão nacional. Como a religião também é forte elemento arraigado no jeito de ser brasileiro, não é difícil fazer a conexão futebol-religião.  

Assistir a uma partida de futebol no Brasil é testemunhar uma série de expressões religiosas tanto da parte de jogadores e equipe técnica como dos torcedores: orações de mãos dadas antes e depois das partidas, gestuais como o sinal da cruz, mãos elevadas, figa, sem contar os acessórios como cruzes, medalhas, colares.  Algo como um apego de fé para que o divino exerça o seu poder para fazer acontecer um resultado positivo.

Tudo isto ganha dimensões mais fortes em períodos de Copa do Mundo. A intensidade emotiva do tema traz fartas expressões tanto no noticiário quanto nas peças publicitárias. Entram em cena os aspectos da fé que são parte da representação do próprio futebol. Quem nunca observou quantas palavras e gestos religiosos estão presentes na publicidade em torno do tema do futebol?

Mas… e o lado bom do fanatismo, existe? Qualquer experiência, seja religiosa, seja esportiva, quando envolve paixão e emoção levadas ao extremo, está a um passo do fanatismo. Aqui estamos no mundo do extremismo e o grande perigo dele está justamente na certeza absoluta e incontestável que o devoto/torcedor tem. Detentor de uma verdade (religiosa ou esportiva), o fanático torna-se intolerante. Não age com a razão quando defrontado com posições diferentes ou questionamentos daquilo que defende. O fanatismo é marcado pela irracionalidade, pelo autoritarismo e pelo agir passional, frequentemente violento. Fanáticos sempre acreditam que o fim, qualquer que seja, justifica os meios.

Somos chamados a prestar atenção em histórias de fanatismo religioso em que a relação entre líderes e seguidores termina sempre em tragédias coletivas. O caso mais famoso e controvertido é o do Templo do Povo, de Jim Jones, na Guiana, no ano de1978. No tempo presente, ações de fanatismo islâmico estão mais em evidência nas mídias, a despeito do caráter fraternal dessa religião. NoBrasil são as religiões de matriz africana as maiores vítimas da intolerância. Fanáticos católicos no passado e,recentemente, evangélicos, são protagonistas de ações que chegam a causar mortes. Isso sem falar das ações de lideranças religiosas, presentes na política partidária, baseadas na retórica do terror e no preconceito, em especial nestes tempos eleitorais…

No futebol o fanatismo se manifesta principalmente por meio de torcidas organizadas. Elas levam a devoção ao extremo de agredirem torcedores dos times adversários. Os outros são tratados como inimigos e as arquibancadas e as ruas viram campo de batalha.

Diante disso, não tive dificuldade na resposta à questão do debate: não, não há um lado “bom” no fanatismo. Em qualquer uma de suas justificativas – religiosas, esportivas ou políticas – não há nada de positivo. Fanatismo é expressão de autoritarismo e de intolerância, duas das mais cruéis características da violência humana. O fanatismo nega o diálogo, a diversidade, o direito do outro à diferença. Fanáticos carregam uma cegueira que não lhes permite ver como um igual quem pensa e se comporta diferente deles; pior, consideram inimigos todos os que não compartilham da sua devoção.

Nestes tempos, vale à pena recuperar a orientação da tradição cristã para qualquer experiência que envolva emoção e paixão: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em tudo, o amor”.

*Jornalista, Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, Pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade. Integra a diretoria da Associação Internacional Mídia, Religião e Cultura (International Association Media Religion and Culture).

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