ALARGAR O HORIZONTE

“Dom Luciano Mendes de Almeida S.J”
Arcebispo de Mariana (Brasil)

 

Penso em primeiro lugar na juventude. Qual é a herança que passamos aos nossos jovens? Há, sem dúvida, conquistas excelentes na tecnologia, na área da comunicação, nas descobertas do mistério da vida -e a enumeração se estende em vários campos. Temos, no entanto, que reconhecer o detrimento causado na vivência dos princípios morais com uma série de desmandos que afetam a vida pessoal e familiar e causam a perda de referencial sobre o próprio sentido da vida humana. A conseqüência é conhecida. Quem de nós não percebe o crescimento da dependência alcoólica, do uso de drogas e da banalização do sexo? Criou-se, aos poucos, uma cultura permissiva que idolatra o prazer e se contenta de emoções fugazes.
Há fatores que contribuem para essa situação, como a ambição pelo dinheiro, a falta de critérios em programas televisivos, o incentivo aos grandes espetáculos de massa que despersonalizam os jovens, induzindo comportamentos miméticos. Nem podemos esquecer a desarticulação da sociedade, que não consegue oferecer trabalho e condições de sobrevivência digna às novas gerações.
Crescem a frustração e o vazio, que se refletem em enormes grupos de jovens que se aglomeram nas praças, noites a dentro, curtindo em conjunto o passar das horas, envolvidos por gritos e sons estridentes que impedem até a conversa entre as pessoas e provocam um ambiente de nervosismo, desgaste psíquico e desequilíbrio. 
Tudo isso são fatos conhecidos e que necessitam a vontade de oferecer novos valores que respondam às expectativas mais profundas do ser humano. É certo que a organização da sociedade poderá facilitar quadros de trabalho, opções de ocupação sadia das energias e do tempo. 
É preciso, porém, “alargar o horizonte” e repensar o nosso modo de viver. O mundo ficou marcado pelas injustiças, pela violência, pelo ódio, pela segregação e pela perda da vontade de sobreviver. A solução se encontra na redescoberta da transcendência do ser humano, da sua abertura a Deus e à felicidade que ultrapassa os engodos e miragens do cotidiano. Somos destinados à vida feliz que se identifica com a alegria da verdade, da adesão ao Bem e à superação do medo diante da morte. É aqui que brilha a beleza da revelação cristã, afirmando o projeto divino da vitória sobre o pecado e a sobre morte e a esperança da realização na plena comunhão entre nós e com Deus.
Ao mesmo tempo em que se alarga o horizonte na confiança em Deus e na promessa da felicidade, surge também a valorização desta vida terrena, que adquire todo o seu sentido como a experiência fraterna da liberdade que supera o egoísmo e se abre para o dom de si. 
Nada realiza mais a pessoa humana do que a vivência da gratuidade do amor, aliada à certeza da eternidade feliz. Sem a esperança não entendemos a existência terrena. Mas, iluminados por essa esperança, encontramos a alegria de respeitar e de amar a pessoa
humana, de estreitar laços de amizade, de vencer discórdias e barreiras, de construir relações de solidariedade fraterna.
Somente o horizonte de transcendência liberta dos apegos e das amarras das bagatelas e dos fogos-fátuos.
Como devolver aos milhões de jovens a alegria de amar e ser amado? 
Essa é a melhor herança que podemos oferecer às novas gerações. Nossos jovens merecem ser felizes  
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[1] Publicado na Folha de São Paulo (São Paulo, Brasil), dia 15 de janeiro de 2005.

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