Análise de conjuntura social e eclesial aponta caminhos para as CEBs

 

Articuladores e assessores latino-americanos e caribenhos de CEBs, reunidos em Juazeiro do Norte (CE) se concentraram, na manhã desta segunda, dia 13, na análise de conjuntura social e eclesial, estudo apresentado pelo sociólogo Pedro A. Ribeiro de Oliveira, autor de obras como Fé e Política: fundamentos” (2004), Religião e dominação de classe (1985), entre outros.

“Vivemos neste início de século uma sensação difusa de mal-estar mundial: parece não haver lugar no mundo onde as pessoas vivam felizes”, afirmou Pedro de Oliveira. “Não por acaso, fala-se de crise de época como equivalente a decadência da civilização ocidental-cristã que desde a modernidade impôs ao mundo a subjetividade, a economia de mercado, o Estado soberano e a tecno-ciência”, completou.

Outra situação apontada pelo sociólogo é o esgotamento do “sistema mundo”, fundado na economia capitalista. Época de profundas transformações, mas também da caça às bruxas (e aos hereges) como na idade média. “Hoje são caçados terroristas, bandidos, traficantes e outros marginais vistos como responsáveis por esse mal-estar. É como se sua morte ou seu ‘apodrecimento’ na prisão fosse um sacrifício purificador para trazer de volta a tranquilidade do passado”, explicou referindo-se às tentativas de endurecer leis e reduzir a maioridade penal.

O pesquisador recordou que, “a economia de mercado, regida pela lei da oferta e da procura, tem como motor a promessa do lucro. Esta é a lógica do mercado: produzir para vender e vender para lucrar”. Em sequência explicou que a economia verde entrou na pauta da ONU como solução para a crise ambiental, mas na verdade “essa proposta cria um enorme campo de negócios para os investidores de capital”.

Segundo Pedro de Oliveira, a pesar da complexidade da situação, existe esperança. “A boa-notícia é anunciar que há salvação para a humanidade. Não é fácil, mas um outro mundo é possível. A Economia Solidária pode tornar-se a forma normal da economia e a sabedoria andina do Bem-viver pode ser a forma normal de organizar a sociedade humana ao reconhecer-se parte da grande comunidade de vida”, disse.

Para falar sobre a conjuntura eclesial, Pedro de Oliveira recorreu a um antigo conceito da sociologia o qual chamou de “desafeição” em oposição ao espírito de “pertença” do fiel à instituição religiosa. Segundo ele, esse par conceitual (desafeição e pertença) serve para entender a indiferença religiosa, a relação meramente funcional e o afastamento do fiel das práticas rituais.

“Ao analisar o que faz pertencer e o que faz se afastar me dei conta do que chamei de dimensão teologal. Muitos dizem que o que faz os fiéis se afastarem da Igreja é a falta de acolhida, as exigências da Igreja ou por que os pastores pentecostais fazem uma propaganda enganosa. Pesquisadores dizem haver uma disputa de mercado por adeptos. Só que religião não é como produto de consumo”, argumentou antes de apresentar a sua hipótese: “a crise é teologal”, ou seja, “é a própria concepção de fé católica que está em questão”.

Pedro de Oliveira conta que acompanhou uma pesquisa na arquidiocese de Belo Horizonte e percebeu que a questão chave é a concepção de missa. “Nos últimos 30 anos, nos habituamos com as celebrações dominicais sem padre e a entender a missa como a memória da Ceia de Jesus e não como um Santo Sacrifício. Ora, quando a gente vai ver o ritual da missa, ela é apresentada como sacrifício”, observou e explicou o que considera a principal razão da evasão dos católicos da Igreja.

O sacrifício só é necessário para a reparação dos pecados e eu desconfio que o nosso povo não tenha tanta consciência de ser pecador para fazer tanta reparação. Então, aquele ritual que é de sacrifício, não é entendido pelas pessoas que acabam se afastando. Nas CEBs o povo não faz muita diferença se é o padre que celebra a missa ou se são os ministros que fazem a celebração da Palavra e a distribuição da Eucaristia. O que importa é que o povo recebe o Corpo e o Sangue de Jesus como Ceia do Senhor. Para isso não precisa daquela tríade das grandes religiões: o tempo, o sacrifício e o sacerdote”, argumenta.

“Aqui temos uma desafeição teologal, por que, um dos princípios do catolicismo é que a Eucaristia faz a Igreja. O padre celebra a Eucaristia como sacrifício e se o povo participa da Eucaristia como Ceia, ou louvor, para pedir uma graça, cura e libertação, nós temos uma desafeição estrutural entre o clero e a massa dos leigos. Então se, neste momento, a massa se afastar da Igreja é normal”, concluiu.

Após a exposição, na parte da tarde, houve aprofundamento em grupo com contribuições na discussão da temática. Participam articuladores das CEBs vindos de Honduras, Equador, El Salvador, Guatemala, México, Peru, Paraguai, Colômbia, Haiti, República Dominicana, Argentina, Brasil e Nicarágua. Estão presentes também representantes das Filipinas e Áustria.

15/01/2014 – notícias – Criado por: Jaime C. Patias

Fotos: jaime C Patias

 

13º Intereclesial de CEBs – @WebMail

 
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2 pensamentos sobre “Análise de conjuntura social e eclesial aponta caminhos para as CEBs

  1. José Nunes disse:

    Quais os pressupostos para falarmos em “graça, cura e libertação”? Se entendi direito, não percebi os caminhos!

    Segundo os desígnios de Deus (AT), salientados pelo Jesus dos quatro evangelhos canônicos em palavras e ações (NT), depois refletido e sistematizado historicamente pela Santa Igreja (AD), a participação eclesial se dá no assumir a pertença concreta a comunidade de fé em comunhão com Deus e com os irmãos. Essa comunhão deve se dar nas lutas e movimentos em busca de melhores condições de vida (Jo 10,10), mas também na frequência assídua à liturgia eclesial – poço (fonte de Jacó) – de onde tiramos a “Água da vida” que nos sacia a sede para continuarmos a caminhada (Jo 4,4-26).

    • Rogerio da Silva disse:

      Viver a felicidade é uma opção pessoal, as escolhas que fazemos e que ditam nossa felicidade, é inimaginável uma pessoal que mora na rua por optar pela felicidade ou grandes milionários que vivem infelizes, encontramos vários casos desses.
      Concordo que há uma caça as bruxas, o foco para encontrar a solução dos problemas sociais são outros, como política econômica entre outros.
      Não acredito que tenhamos um problema teologal, mas sim um problema cultural, hoje as religiões, seja ela qualquer uma, estão de forma indireta secularizadas, nossas atitudes e convicções no âmbito religioso é balizada na maioria das vezes em valores da sociedade moderna e não religiosos., até lideres religiosos que pelo menos deveriam indicar um caminho diferente indiretamente estão impreguinados com valores contrários a religião.
      Acredito que o afastamento dos ritos religiosos se dá em parte pelo discredito da instituição religiosa.
      Mas também há valores que falam mais alto em nosso intimo, como o individualismo, muitos de nós pregamos e vivemos um Deus partucular, pois não precisamos dividi-lo e assim não nos comprometemos.
      Hora ir de encontro onde o ápice do ritual tem um sacrifício feito por que eu nem conheço e ainda tenho que partilhar deste sacrifício é ir contra os valores e princípios impostos pala lei da sobrevivência nesta sociedade louca por lucro.
      Este sacrifício só tem sentido atrelado a fé e esta fé nos fala em sacrifício, comunhão, partilha para pessoas que nem conheço, soa como aberração, alienação, pietismo …

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